domingo, 7 de outubro de 2012

Software Livre: questão política ou técnica?


Conheço pouco sobre o tema, apesar de defender diante dos professores que era a uma boa opção no caso do Proinfo. O  meu principal argumento era o valor gasto com licenças Windows poderia ser investido em outras áreas ou projetos. Para aproximar do tema, foi fundamental o livro de Sergio Amadeu “Software Livre: a luta pela liberdade de conhecimento” (2004). Apesar de não ser uma obra recente e, também por isso, traz noções básicas do tema. Na leitura foi esclarecido que o Software Livre (SL) tem mais relação com a liberdade de expressão do que com os custos para uso, “software livre não significa software não-comercial” (p.14).
 O autor milita em favor do software livre que define como “Socialmente justo, economicamente viável e tecnologicamente sustentável”. O autor situa a partir de 1980 a difusão do movimento software livre que defende o compartilhamento livre ou auto-organizado do conhecimento tecnológico; tem como principais defensores os hackres*; o ciberespaço é o principal espaço de compartilhamento e difusão desse movimento. O movimento encontra a oposição das grandes empresas de software que lucram com os licenciamentos de programas e sistemas e os políticos financiados por essas empresas. 

* Primeira lição: hacker é diferente de cracker, estes últimos utilizam os conhecimentos de informática para violar sistemas e cometer crimes eletrônicos.

A digitalização traz a característica da reprodutividade técnica da informação sem a perda da qualidade original, o que permite o compartilhamento de softwares, programas, sistemas (são sinônimos?) sem que o envio dessas informações resulte em perdas para o criador ou disseminador; o conteúdo também não perde a qualidade. Então a resistência ao software livre tem fundo político-econômico e não técnico.

*Segunda lição: as quatro liberdades dos Softwares Livre são de uso, cópia, modificações e redistribuição. É pirataria isso? Não dentro da concepção de SL em que o respeito a autoria não corresponde a propriedade privada intelectual (software proprietário); no SL existem autores e não donos. A General Public Licence (GLP) – Licença Pública Geral -  é um tipo de licença que garante os 04 princípios do SL citados, sendo que o copyleft impede que os softwares derivados se tornem softwares proprietários

O SL tem como característica básica para permitir os pilares da liberdade descrita acima ter o código-fonte aberto (Open source). Entretanto há diferença entre software gratuito (que pode ser proprietário, ex. Adobe Reader), software aberto (que não permite as 4 liberdades) e software livre (open source e livre, ex. GNU Linux).
O histórico do movimento SL é bem interessante, desde a iniciativa de Stallman do MIT  com o projeto GNU, a criação do Linux por  Torvalds e a filosofia BSD (Berkerley Software Distribuition) que mantém os princípios do SL. A adesão de desenvolvedores em todo mundo aos projetos de SL é impressionante (100 mil em torno do OpenOffice.org)
Os estudos de Alan Story, de 2001, mostrou que os principais beneficiários das atuais leis de direitos autorais são os países ricos, a ex. do EUA que faturaram US$ 36,5 bilhões em royalties e licenças de propriedade intelectual em 1999; só o Brasil pagou US$ 1 bilhão....as cifras são impressionantes!!!! “Como a tendência da economia capitalista é se tornar crescentemente baseada em informações e em bens intangíveis, a disputa pelo conhecimento das técnicas e tecnologias de armazenamento, processamento e transmissão das informações assume o centro estratégico das economias nacionais.” (p. 06).

*Terceira lição: quando se compra um software proprietário (tipo os da Microsoft), apenas adquirimos a licença de uso e não o produto.

De um ponto de vista mais geral, os softwares são considerados bens inatingíveis, não-rivais, ou seja, o seu uso não exclui o uso por outras pessoas simultaneamente “O produto físico é presente e as idéias são onipresentes” (p. 27). Isso se contrapõe a nossa concepção burguesa de uso privado e individual dos bens sociais. Nossa mentalidade privatista e individualista impede que consolidemos, por ex., a carona solidária entre vizinhos, colegas de trabalho ou escola/faculdade e a cidade se entope de carros em detrimento do transporte coletivo.

Discordo do autor ao afirmar que o desenvolvimento da ciência só foi possível graças a liberdade de transmissão e ao compartilhamento do conhecimento, pois carrega o pressuposto da liberdade plena da ciência. Sabemos que o conhecimento científico tem uma liberdade condicionada, por paradigmas hegemônicos, por ideologias de agências de financiamento, cuja autonomia científica depende da correlação de forças entre a comunidade científica e as estruturas de poder. (foi só um parêntese). Mais interessante é a discussão sobre o valor das ideias e as implicações da propriedade intelectual sobre esse bem social, assim como os interesses envolvidos nas leis de patente na Europa e EUA (cap. 4). As informações desmentem a falácia de que há grandes investimentos das corporações na invenção e desenvolvimento dos softwares e sistemas, o que justificaria as restrições do uso de suas aplicações e a cobrança de direitos autorais.

Experiências com o SL como base tecnológica se espalham pelo Brasil e pelo mundo. O caso de Extremadura, província de uma região pobre na Espanha, foi emblemático na decisão por autonomia do software como estratégia para o desenvolvimento local, a partir de fins de 90. No Brasil, a adoção do SL pelo governo se deu a partir de 2003, em torno de cinco argumentos:
1) argumento macroeconômico,
2) argumento de segurança,
3) argumento da autonomia tecnológica,
4) argumento da independência de fornecedores,
5) argumento democrático.

Chama a atenção os gastos com licença de uso de software proprietário para informatização de 100 mil escolas públicas: cerca de US$ 300 milhões a cada 2 anos. Nesse aspecto, meu argumento inicial não é de todo secundário, em vista da necessidade de investimento na infraestrutura de conexão banda larga e manutenção periódica dos equipamentos. A segurança dos dados e informações e a perspectiva de independência tecnológica são argumentos em favor do SL.

“O software livre reforça a ideia e a constituição de padrões públicos”.(p. 8). Será possível que essa mentalidade se consolide sem mudar a concepção de propriedade privada que está na base da sociedade capitalista, com a estrutura política e jurídica entrincheirada na sua defesa? Só a mobilização social para dizer mas, de antemão, muitos princípios naturalizados no modelo de sociedade capitalista, como o direito privado aos bens culturais, podem ser colocados em xeque, especialmente através de movimento que não tem líder (que poderia ser cooptado facilmente) , mas um princípio de liberdade que se dissemina.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Letramentos: vivências plurais


Magda Soares é uma importante referência para mim quando se fala em Letramento. Tive contato com a autora pesquisando materiais sobre o tema para as formações no NTE. Em um dos textos dela que discutimos (Novas Práticas de Leitura e Escrita: Letramento na Cibercultura, 2002) há a problematização das diferentes perspectivas de letramento, por isso o uso do plural, revelando “a diversidade de ênfases na caracterização do fenômeno” (p. 144). Atualmente, vemos com frequência no vocabulário pedagógico o conceito de letramento como uma ação mais ampla e complexa de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita que o conceito de alfabetização não contemplava. Esse último agora entendido como um dos requisitos para se chegar à competência mais sofisticada de estar letrado. No entanto, penso que nos escritos de Paulo Freire, especialmente as obras voltadas para Educação de Adultos, o próprio conceito de alfabetização proposto já rompia com uma perspectiva instrumental de aprendizado da base alfabética, englobava a discussão do contexto social, a valorização dos adultos como sujeitos de linguagem e de sua história, os mecanismos de exploração do sistema capitalista, conjugava a leitura do mundo e a leitura da palavra visando à conscientização dos sujeitos. Ainda no mesmo texto citado, Magda Soares traz as concepções de Tfouni e Kleiman, autoras que se referem ao letramento como práticas sociais de leitura e escrita, o que englobaria também os impactos da escrita para os contextos sócios históricos para Tfouni, o que o conceito de alfabetização não abrange, mas aponta para outra definição: o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita (p. 145).


A discussão acerca da alfabetização e de práticas mais sofisticadas de escrita e leitura (letramento) começa a tomar corpo em vários países em meados da década de 80. No Brasil, os dois conceitos aparecem imbricados, ao contrário de países como EUA e França onde as discussões são conduzidas separadamente, pelo fato de toda população ter passado pela educação básica e, assim, domina a escrita. Entre nós, Soares (Letramento e alfabetização: as muitas facetas, 2004) indica que o conceito de alfabetizado vem se transformando no sentido da aproximação com o conceito de letramento (competência no uso da leitura e escrita). A autora traz o argumento interessante sobre o fracasso da aprendizagem da língua escrita que são mostrados nos resultados de diversas avaliações externas (SAEB, ENEM, PISA, Prova Brasil e outros): a perda da especificidade e importância da alfabetização nos processos educacionais de aquisição de escrita que aparece diluída entre as diversas atividades em relação às demais aprendizagens e comportamentos na área da leitura e da escrita” (p. 9). Soares também apresenta entre as causas dessa situação de fracasso na alfabetização, ou melhor, da ‘desinvenção da alfabetização’, fatores pedagógicos que vejo serem repetidos pelos professores que atuam nas séries iniciais sem muito eco nos sistemas educacionais: a organização das séries em ciclos e a progressão continuada. Essa fala me surpreendeu! Vinda dos professores é sempre desvalorizada pelos sistemas educacionais que consideram suas bases pedagógicas sempre as mais avançadas. A autora também coloca as mudanças de paradigma em relação ao conceito de alfabetização no Brasil e em outros países, também como fator de diluição do seu significado: um paradigma behaviorista, dominante nos anos de 1960 e 1970, é substituído, nos anos de 1980, por um paradigma cognitivista, que avança, nos anos de 1990, para um paradigma sociocultural” (p. 10). Aqui o paradigma construtivista torna-se hegemônico na alfabetização escolar sob influência dos estudos de Emilia Ferreiro e a psicogênese da escrita. A dogmatização desse paradigma trouxe alguns equívocos sinalizados por Soares: 1. a ênfase na dimensão psicológica da alfabetização negligenciou os aspectos linguísticos da aquisição da leitura/escrita (onde o sistema alfabético e ortográfico é também composto por relações convencionais e arbitrárias,ex. fonema-grafema); 2. O pressuposto de que o paradigma construtivista excluía qualquer método de alfabetização (a teoria sem o método), agora considerados métodos tradicionais por analogia aos métodos até então prevalecentes (fonético, silábico, etc); 3. O falso pressuposto que apenas com o convívio intensivo com materiais escritos a criança se alfabetiza.

 Ao ler o texto muitas questões sobre alfabetização e letramento foram esclarecidas. Não fui alfabetizada na escola, mas em casa por minha mãe que não teve oportunidade de concluir nem o ensino fundamental e me alfabetizava naquela cartilha do “U de uva, I de Ivo...”. Indiretamente também por meu pai que sempre gostou de ler jornais e revistas e lembro, ainda criança, de ficar por perto, olhando o jornal...um dia peguei o jornal e comecei a ler para eles. Quando fui para escola já sabia ler, escrever e somar/subtrair, mas fui matriculada numa turma de alfabetização. Já trabalhando com formação de professores, me perguntava: por que os Pedagogos com tanta bagagem e anos de estudo não conseguiam alfabetizar as crianças? Não entendia. Alguns colegas diziam que eles não eram formados para isso, não era objetivo do curso, que isso era obrigação das normalistas ‘professoras do Magistério’. Comecei a enxergar o problema de outro ângulo agora com essa leitura. Numa palestra de Saviani, durante o seminário Gramsci no Limiar do Século XXI: Pessimismo no Pensamento, Otimismo na Ação, na UNEB, em 2010, ele salientava que o processo de alfabetização tinha que ser um processo sistemático, constante, às vezes repetitivo e que envolvia a aprendizagem de convenções linguísticas, até chegar o ponto irreversível da alfabetização, o que em cada pessoa tem um tempo, o que não era viabilizado nesses programas aligeirados de alfabetização em massa (TOPA e outros derivados). Concordo com ele.

A escrita digital traz outros desafios para pensar a nossa relação com a cultura escrita. Os modos de comunicação na rede digital traz a configuração de uma escrita híbrida, segundo Denise Bertoli Braga, onde marcas da oralidade, escrita e imagem se misturam para compor os discursos que, muitas vezes, só tem significado na comunicação na Internet. Para os radicais, a autora salienta que as outras linguagens também passaram por diversas transformações na sua constituição em função dos contextos sociais de uso ao longo do tempo; as linguagens são históricas, por isso são dinâmicas e complexas. Como na cultura escrita, em que  mesmo as pessoas consideradas iletradas ou as analfabetas interagem com os elementos dessa cultura, também na cultura digital 'os analfabetos digitais' interagem com os elementos da cultura digital, mesmo que seja com a ajuda de outros mais capazes (na maioria dos casos os mais jovens) na perspectiva vygotskyana e vão desenvolvendo sua ZDP através de estratégias para lidar com os desafios dessa sociedade.
Não avancei muito nas leituras propostas, me detive em Magda Soares, mas acho que o debate em sala enriquecerá minhas reflexões. Vai uma charge em homenagem as políticas de inclusão digital que ainda serão debatidas.

sábado, 22 de setembro de 2012

Inclusão Digital: outras reflexões


Ao ler alguns dados sobre acesso às TIC e, especialmente a Internet, destaca-se o pouco acesso através de espaços públicos em contrapartida ao maior acesso através de pontos privados, coletivos ou não. Isso ‘de cara’ já sinaliza a inoperância das políticas públicas de inclusão digital (como já discuti sobre esse termo na postagem anterior, não vou polemizá-lo aqui, mas sinalizo sua incompletude e pouca adequação). Paralelamente, é interessante perceber o avanço das lan houses, especialmente nos bairros populares (mesmo nos mais distantes e isolados, sempre há uma lan house, um mercadinho e uma igreja evangélica; um trinômio bem significativo se pensarmos no poder da tecnologia, do mercado e da ideologia, não necessariamente enquanto instâncias separadas). Nesses espaços de uso coletivo da internet (as lan houses) acredito que há um universo de usos e sentidos para as TIC e de variadas formas de inserção dessas pessoas na rede: a garotada que vai jogar em rede (já ouvi dizer que fazem vaquinha para pagar o acesso e compartilham o tempo); já vi pessoas que não sabem usar o computador e contam com a boa vontade dos atendentes para acessar 2ª via de contas, documentos e outros serviços...são tantas situações, mas vejo pouca análise científica sobre o tema, apenas dados.

No Mapa da Inclusão Digital da FGV apresenta que no ranking mundial de acesso a internet o Brasil está em 63º lugar entre 154 países pesquisados, o que segundo a pesquisa não é um resultado tão negativo. Os dados apresentam desigualdade de acesso entre os homens e mulheres, entre a zona urbana e a rural, entre as regiões sul / sudeste e norte/nordeste, ou seja, muitas das desigualdades consolidadas historicamente, são reproduzidas quando o dado em análise é a inclusão digital. E quais as perspectivas de mudança desse cenário? A pesquisa deixou subtendido que isso depende da melhoria das condições de vida da população, porém penso que essa melhoria tem sido tão limitada, que a mudança social deve ser mesmo estrutural.

Sobre as políticas públicas de inclusão digital, essas discussões começam a ganhar visibilidade, no Brasil, a partir dos debates em torno do programa Sociedade da Informação, mas as preocupações mercadológicas prevalecem (BONILLA, 2010). Aponta para os limites dessas políticas no âmbito educacional através de programas como o Proinfo, Proinfo rural e Programa Banda Larga na Escola: a velocidade de conexão, a internet que não chega na zona rural, o lobby das empresas de telefonia que resulta em conexões caras e lentas. Os pormenores do problema, relatados cotidianamente pelos professores, acrescentam a falta de condições de funcionamento dos laboratórios,  a falta de manutenção dos equipamentos após a perda da garantia, o número reduzido de computadores para o quantitativo de estudantes, a não liberação das secretarias para a formação em serviço e tantos outros. Vejo as iniciativas mais interessantes serem desenvolvidas a partir do engajamento dos sujeitos atuantes na concretização das políticas do que resultante de uma política pública bem estruturada.

Como um dos dados da pesquisa da FGV demonstra o acesso decrescente em relação a idade, ou seja, quanto mais velhos maior o nível de "exclusão digital", será que buscamos mesmo a universalização do acesso ou apenas para aqueles que são foco do mercado de trabalho? Deixo a reflexão a partir da charge:


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Do que se fala quando o assunto é inclusão digital: aproximações


O tema inclusão digital, numa sociedade marcada pela institucionalização da exclusão, cujo o principal alicerce talvez seja o direito a propriedade privada, como nos diria Rousseau, ainda no século XVIII, (Discurso sobre as Origens da desigualdade entre os homens), tem um apelo de justiça social contido no termo inclusão. Nessa primeira acepção, “o Digital” é apenas um complemento que poderia ser substituído por outros termos representantes de demandas igualmente legitimas: inclusão educacional, inclusão financeira, inclusão cultural, inclusão no mercado de trabalho ou, mais abrangentemente, inclusão social. No entanto, a presença maciça das TIC digitais nas mais variadas atividades sociais, coloca a inclusão digital em primeiro plano. 



Vamos começar analisando os sentidos da categoria inclusão social. O termo complementar, exclusão, também aparece em diferentes discursos, relacionando-se com aspectos sociais específicos, processos que abarcam desde a degradação das relações sociais às desigualdades múltiplas postas em ação pela forma violenta da acumulação capitalista em nosso país” e até mesmo pessoas 'os excluídos' (Ferreira, 2006, p. 02) . Mônica Ferreira questiona a “migração de idéias” ou apropriação de conceitos que está por trás da banalização de muitos conceitos, retirados de seu contexto de produção e isolado das referências teóricas com que dialogava. Assim é que diversos conceitos são utilizados para justificar o injustificável no neoliberalismo e para estabelecer “os limites do pensável e[...] circunscrever o contestável” (p. 06). No plano das políticas públicas, a autora aponta que a exclusão aparce como “resíduo necessário” das incontestáveis leis de mercado e do modelo de globalização implantado, que pode ser amenizada através de soluções técnicas e competência administrativa e não por políticas. Resgata autores como Martins (1997) para quem o que se chama de exclusão é na verdade os problemas resultantes da reconfiguração da sociedade no capitalismo atual, a inclusão subordinada, ou seja, o capitalismo dessenraiza e exclui para depois incluir segundo sua lógica: “[...]exclusão , passa pela redefinição de posições e localizações das pessoas no mundo do trabalho particularmente, e na vida social em geral”.(p. 07). Para o autor, apesar da exclusão e inclusão fazerem parte da estrutura capitalista, a exclusão tem se tornado tão evidente pelas formas precarizadas e pelo distanciamento entre esse dois processos. Outro autor citado é Oliveira que afirma ser a exclusão a marca do capitalismo na América Latina, onde se implanta o modelo de capitalismo neoliberal numa estrutura política-econômica arcaica, o que chamei de modernização conservadora (termo tb utilizado por Cysneiro), e que denomina de o atraso da vanguarda e a vanguarda do atraso. Para esse autor a exclusão refere-se ao descarte de parte da população nos paises latino americanos para se subordinar aos capitalismo global.


Bem chegamos na inclusão digital: seria um recorte da questão mais ampla da inclusão social? Bonilla e Oliveira (2011) situam o início do debate sobre inclusão digital no contexto de implantação dos programas Sociedade da Informação em diversos países, mas principalmente nos países europeus e nos EUA na década de 90. A desigualdade do acesso às TIC têm servido de base para políticas de inclusão digital de diferentes alcance e princípios (universalização ou democratização do acesso? ) e fomentado o debate acadêmico acerca das significações da inclusão/exclusão digital (Possibilita a inserção na cibercultura?). Como pensar a inclusão digital numa sociedade que tem uma lógica excludente, ou melhor, de níveis de inclusão diferenciados? A ampliação e aprofundamento dessa questão levaria ao questionamento sobre as bases do modelo de sociedade hegemônico e a perspectiva de transformação do mesmo, uma dimensão que as políticas compensatórias não buscam pois sua função é a manutenção desse modelo “A luta pela inclusão é também uma luta paran manter a sociedade que produz a exclusão” (MARLENE RIBEIRO, 1999 apud Bonilla e Oliveira, 2011). Inclusão tb não significa apenas tornar os sujeitos consumidores de informação, de objetos, de cultura, mas possibilitar a participação ativa na sociedade como sujeitos produtores de cultura. Os argumentos apresentados pelos autores apontam que a criação de infraestrutura de acesso às redes digitais para toda sociedade é apenas um aspecto da construtução da nova cidadania, a possibilidade de inserção ativa, autoral na nova esfera pública é um aspecto essencial da emancipação dos sujeitos.

André Lemos, numa artigo publicado no Correio Brasiliense, em 2003, trazia a importância que o tema adquiria, especialmente em países como o Brasil, marcado pela exclusão damaioria da população dos bens básicos e dos direitos legais, e os limites da discussão até aquele período. Segundo o autor, os dogmas da inclusão digital estavam ligados a uma visão limitadora e tecnocrática: a sociedade deve ser incluída na sociedade da informação, ponto final; deve-se criar condições de infraestrutura para o acesso aos serviços digitais; a principal estratégia é a instalação de telecentros. Estudioso da cibercultura, Lemos questiona esses dogmas e os objetivos que permeiam essas premissas “incluir para que e para quem?” Nessa perspectiva, incluir é adaptar ao status quo; tendo a concordar com o autor. Os telecentros são estratégias que seguem essa perspectivas (talvez por isso as pessoas prefiram o acesso privado ao acesso gratuito nestes locais). Por fim, define inclusão: “Incluir é ter capacidade livre de apropriação dos meios, que não é só técnica, mas sociocognitiva ”. Essa análise de Lemos nos faz pensar que a tão propalada inclusão social pode significar apenas adaptar a um modelo social vigente decadente, em crise.

São muitas questões, todas profundas e interrelacionadas, para compreensão do problema em sua complexidade e não a partir dos dogmas que muitas vezes limitam a análise da inclusão digital.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Tecnologia Assistiva e inclusão social


Esse tema “Tecnologia Assistiva” é de fundamental importância para se pensar uma sociedade plenamente igualitária. Apesar de defender politicamente a inclusão das pessoas com deficiência, a falta de leitura e aprofundamento coloca meu discurso mais no plano do senso comum, sem pensar nos fundamentos dessa inclusão. O texto sugerido (um deles) “Tecnologia Assistiva: de que se trata?” de Teófilo Galvão F° resgata tanto o aspecto conceitual quanto os marcos legais sobre essas tecnologias. Penso que é uma incompletude discutir TIC e não ter apropriação teórica sobre Tecnologia Assistiva.

Durante a leitura, relacionei com algumas experiências pessoais que foram importantes pontos de aproximação com o tema. A primeira foi uma experiência na rede municipal que me deixou muito sensibilizada: a partir de um projeto de formação de corais nas escolas, fui acompanhar a culminância “O Encontro de Corais” no TCA, não me recordo o ano, eram várias escolas e ums dos corais era de meninos e meninas surdos-mudos, eles cantaram a música de Arnaldo Antunes e Brown “Velha Infância” : a música era executada e os alunos interpretavam a através da linguagem de sinais. Nossa !!! Nunca tinha imaginado essa possibilidade, afinal o coral é uma interpretação, uma leitura e essa era a leitura deles...fiquei emocionada.No texto Teófilo enfatiza que não basta “assistir” as pessoas com deficiência mas é necessário mudar também o contexto social para inclusão dessas pessoas “as intervenções e modificações devem ocorrer, dessa forma, também na sociedade, para que esta possa tornar-se realmente acessível e inclusiva”. Neste sentido, as dificuldades estão mais relacionadas as limitações da organização social do que nas limitações específicas de cada deficiência.

Lembrei das dificuldades de locomoção que enfrentei em 2011 por causa de uma infecção que tive no pé esquerdo, foram 02 meses de muleta, e como a cidade, em todos os seus aspectos relacionados a mobilidade e acesso é cruel com os que tem dificuldade de locomoção, não só as pessoas com deficiência motora, mas os idosos e pessoas em reabilitação. Em condições “normais” de mobilidade sempre ando com pressa e nunca havia percebido como o tempo do sinal para travessia dos pedestres é muito curto para que tem dificuldade de locomoção: pude me colocar em outro lugar. Aí o texto traz um conceito muito importante para compreender a inclusão numa outra perspectiva não somente de adaptação que seria Desenho Universal ou desenho para todos: pensar a organização da sociedade e dos espaços “[...] com vistas à participação, utilização e acesso de todas as pessoas”. Isso vai além da perspectiva de adaptação e segregação, com criação de espaços específicos para pessoas com deficiência.

O texto deixa claro que houve necessidade de definição/padronização conceitual, e neste sentido termo Tecnologia Assistiva, no singular, enquanto campo de conhecimento, envolvendo não somente produtos mas também serviços, tem sido o mais aceito pelas associações , comitês e consórcios voltados para essa área; a regulamentação também deve servir de marco para outros entendimentos mas a legislação brasileira ainda utiliza o termo Ajuda Técnica e associa mais aos produtos do que aos serviços e sem uma perspectiva mais ampla de inclusão que, no meu entendimento, passa pela inclusão social num modelo de sociedade excludente.

Não sei se avancei na interpretação textual, mas outras questões quero esclarecer no Seminário de Adriany e Priscila. Nos vemos lá!

sábado, 12 de maio de 2012

Mobilidade e Convergência

A partir da discussão no último seminário, na terça, e no grupo de estudos (quinta-feira) percebi aproximações entre esses temas e por isso resolvi fazer as reflexões na mesma postagem (uma postagem de convergência de temas...rs). Levy (1993) abordava que uma das características das redes digitais era a abertura a novas conexões e que não era possível encontrar a essência ou o núcleo central dos computadores, pois mesmos os mais antigos eram síntese de conhecimentos da informática, eletrônica e de várias ciências, sempre aberto a atualizações. Mas sem dúvida uma marca fundamental das redes é a digitalização, a transformação da informação, qualquer que seja, em bits amplia a plasticidade dessa informação, ao mesmo tempo em que facilita sua transmissão em redes de comunicação: “ a principal tendência neste domínio é a digitalização, que atinge todas as técnicas de comunicação e de processamento de informações. Ao progredir, a digitalização conecta no centro de um mesmo tecido eletrônico o cinema, a radiodifusão, o jornalismo, a edição, a música, as telecomunicações e a informática[...] Ora, a codificação digital relega a um segundo plano o tema do material” (p. 102).
Paralelamente, na dimensão física dos suportes, houve, e ainda há, uma crescente miniaturalização dos equipamentos e isso, sem dúvida, tem a ver com a ‘revolução dos transistores’ como já foi abordado pelo colega Santana em outros momentos, mas que também tive contato durantes as aulas de eletrônica. Penso que são esses dois processos a digitalização das informações e a minituarização dos equipamentos,  que estão na base da mobilidade e da convergência. A convergência de linguagem, que tem seus primórdios nas experiências de multimídia, na década de 1990, visando a integração entre a TV e alguns recursos interativos próprios da informática. A hibridação de linguagens possibilitada pela lógica hipertextual  presente nas redes digitais permite a interface entre diversas mídias,  na chamada hipermídia, e o resultado é mais que a soma das mídias. Mas a convergência engloba questões políticas e culturais, pois essa nova forma de organização e distribuição dos bens culturais, segundo S. Amadeo Silveira(2008) está “[...] desorganizando velhos modelos de controle da indústria cultural e dos serviços de telecomunicações, assim como lançando os grupos econômicos em uma feroz disputa pelos fluxos de riqueza” (p. 31). A industria fonográfica é o exemplo mais evidente dessa realidade. Por outro lado, penso que nem todos os bens culturais ou tecno-científicos estão disponíveis para toda a sociedade, refiro-me a medicina de alta complexidade e suas moderníssimas tecnologias de diagnóstico: nesse campo ainda há uma concentração por algumas indústrias (vejo a marca da Siemens que é uma empresa alemã da época da 2ª Revolução Industrial em muitos equipamentos de tomografia, RX, etc) e o uso fica restrito nos hospitais e clínicas. Mesmo que a interconexão possa potencializar a democracia (Silveira, 2008), acredito, concordo com Marco Silva que há uma mobilização em paralelo a uma despolitização. Um dia chegamos lá!!!!

Lemos (2004) no artigo Cibercultura e Mobilidade: a Era da Conexão argumenta que passamos da Era da Informação, iniciada na década de 70, para a chamada Era da Conexão marcada pela computação ubíqua e pela internet sem fio. Essa fase requer a revisão de conceitos consolidados nos estudos da sociedade e Lemos cita autores da Sociologia da Mobilidade como base para um novo paradigma ‘do social como sociedade para o social como mobilidade’. Alguns desafios para nossa compreensão desse contexto: reexame do significado de proximidade, distância e mobilidade; reconfiguração do tempo/espaço e do público/privado; hibridismo entre espaço físico e eletrônico; nomadismo tecnológico. O autor define mobilidade nestes termos: “Define-se mobilidade como o movimento do corpo entre espaços, entre localidades, entre espaços privados e públicos. Parece que novas práticas do espaço urbano surgem com a interface entre mobilidade, espaço físico e ciberespaço, como veremos adiante” (p. 03). Suas análises e argumentações, que na construção do texto aparecem de forma repetida, enfatizam as conexões que se estabelecem a partir de dispositivos móveis e da internet sem fio, que nos coloca, do ponto de vista tecnológico, diante da possibilidade de ubiqüidade, de onipresença ou de conexão em todos os lugares, potencialmente, pois são as configurações sociais que dão o direcionamento , neste sentido, percebemos, e é explicitado no texto, que se trata da realidade das metrópoles.

Assim, penso que esses processos paralelos de transformação no hardware e no software vão culminar no quadro tecnológico que vivenciamos. E embora sempre nos policiemos para evitar um olhar evolucionista, no campo das técnicas e tecnologias penso como Regis Debray (1996) que “a técnica obedece a um tempo de progressão [...] esse devir sinalizado” (p. 222/223);  que a tecnologia é uma flecha que uma vez disparada não retrocede. E para quem não sabe a diferença entre software e hardware, o Garfield explica bem explicadinho...rs

domingo, 6 de maio de 2012

Seminário Interatividade

No dia 08, próxima terça, eu, Harlei e Ugo traremos para a discussão o tema INTERATIVIDADE, por isso, gostaríamos e agradeceríamos bastante a participação dos(as) companheiros(as) de disciplina na construção do nosso seminário. Sintam-se à vontade para alterar, sugerir temáticas, concordar, discordar....enfim, remixar o nosso plano para o seminário, que segue abaixo:"

Organização do seminário:

1)      Conceitos básicos de interatividade
. O que é interatividade?
. Interatividade X Interação
. Conceito de ‘interacionismo’
. Níveis de interatividade - Podemos falar em níveis? (graus qualitativos de interatividade)

2)      Propostas de discussões:
. Interação e socialização
. Existe a possibilidade de um terceiro, fora do processo de interação, avaliar o grau de interatividade?
. As tecnologias digitais potencializam a interatividade? Como?
. Seria possível construir um sistema computacional que possa avaliar a interatividade?

3)      Interatividade e educação: potencialidades para o aprendizado

4)      Interfaces
Exemplos de recursos interacionais

Como inspiração, segue trechos de experimentações a partir do Parangolé de Hélio Oiticica, criação dentro da concepção de arte interacionista.


domingo, 29 de abril de 2012

A nossa blogosfera

Para manter o hábito (ou será o vício?) de publicação no blog, fui navegar nos blogs dos colegas, algo que já vinha fazendo, mas sem conseguir dar conta de todos...ao som do Led Zeppelin “The Song Remains The Sam”...a guitarra de Jimmy Page é fantástica!!!!! A leitura dos textos é muito importante, mas tem sido enriquecidas com as discussões e as publicações e comentários...me levam a rever o que pensei e publiquei. Embora exista a possibilidade de edição das postagens, acho legal manter o texto sem o lapidar, são idéias em construção mesmo. Após os seminários da última aula (que bom que fiquei em ssa para participar), as discussões que moveram, a postagem seria outra.Vou vasculhar as últimas postagens da nossa blogosfera.
 Interessante como cada autor imprime sua marca no blog, seja através do texto, seja através do visual. Os colegas da área de comunicação têm um cuidado especial para que suas postagens se comuniquem com os possíveis leitores (os títulos das postagens de Ugo já convidam para a leitura imediata, a imagens são articuladas com os conteúdos, bem bacana), a atualidade dos fatos que mencionam; o blog de Daniel é de alguém mesmo high tech que transita muito a vontade entre as diversas possibilidades gráficas e comunicacionais das TIC; as palavras envolventes de Handherson torna a leitura de suas postagens sempre um exercício agradável; os blogs de Santana e Harlei e Santana remetem a minha formação técnica, que não foi tecnicista, e as reflexões críticas de ambos demonstram que a formação na chamada Área 1 não precisa ser alienada; Adriany busca sempre estabelecer o diálogo sensível entre os autores e seu objeto, construindo um olhar todo especial (fiquei muito impressionada com o modo como ressignifica as categorias teóricas a partir das especificidades da deficiência visual, ainda não avancei neste sentido); o blog de Léa (que é fofo!) resgatou a importância de reler Vygotsky que, embora não tenha produzido no contexto da cibercultura, pensa o desenvolvimento psicológico/cognitivo e as linguagens como algo histórico e contextual, o que abre nossas possibilidades de interpretá-lo para esse momento; o blog de Helena expressa muitas idéias interessantes que ela não verbaliza na sala, mas que bom que tem o registro nesse espaço;  Ferdinando lançou mais questões do que respostas para fomentar o debate, com a poesia de Gil inspirando outras viagens; li o blog de Irinaldo para saber o que pensa, o perfil não tem informações, parece bem reservado; como não lembrar da nostalgia da postagem de Priscila que, em outro momento, também me jogou nas lembranças de minha infância num lugar que não existe mais pq foi destruído pela exploração de minerais “A grana que ergue e destrói coisas belas”.
Robert Plant, que é super performático, apresenta Stairway to Heaven como uma música sobre esperança, esta foi a música que me levou até o L. Zeppelin. Lendo a postagem de Pedro sobre Ativismo em rede (não havia lido antes), desperta um sentimento de esperança, de que pelo menos a indignação não morreu e nem foi sepultada pelo neoliberalismo. A indignação que permeia as reflexões de Julio sobre a Educação e a escola pública sucateada por muitas políticas educacionais mal intencionadas, ou melhor, políticas escrotas! São angústias que também compartilho como militante da educação pública.


Na verdade quero com essa postagem homenagear a turma toda e a capitã (Bonilla) por estarem me proporcionando momentos tão significativos nesse semestre do curso. Tem sido prazeroso e de muita aprendizagem. Adicionei os blogs nos favoritos para ler em vários momentos. Infelizmente, a Academia não é sempre isso, as vezes deixa de ser um espaço de construção do conhecimento e se perde em disputas de poder (ou só de ego) e em questões mesquinhas.
Para quem não sabe o que é rock’n’roll melhor que ouvir  NX Zero e coisas do gênero, é , o o solo de bateria de John Bonham em Moby Dick ou o baixo de J. Paul Jones em Heart breaker, o bom e velhor rock,n,roll. E a tropa é hard que nem o rock, osso duro de roer!!!!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Objetos de aprendizagem: reflexões iniciais


O tema Objetos de aprendizagem a princípio parece muito próximo dos professores que lidam constantemente com os processos de ensino/aprendizagem de alunos. De forma ampla penso que todos os meios ou dispositivos ou ambientes utilizados para promover a aprendizagem seriam os tais objetos. No plano mais filosófico podemos pensar na própria construção do conhecimento a partir da relação sujeito-objeto (na perspectiva construcionista que estudamos na disciplina do prof. Roberto Sidnei). Aqui o recorte são os objetos de aprendizagem que tem como suporte as Tecnologias Digitais (as redes telemáticas) utilizadas na educação on line e outros sistemas de aprendizagem em rede.

Me detive na leitura de DIAS, Paulo. Desenvolvimento de objetos de aprendizagem para plataformas colaborativas que foi indicada pelo grupo responsável pelo Seminário (uma boa indicação). O autor entende a Web não apenas como um depositório de informações, mas como redes que permitem a construção coletiva e colaborativa de aprendizagens, especialmente através das comunidades. Ele aponta que pensar na aprendizagem on line requer novos fundamentos educacionais, assim como “[...] flexibilização dos modelos organizacionais dos conteúdos que estão na origem do conceito de objeto de aprendizagem (Hodgins, 2002; Wiley, 2002).” (p. 163). Além desses aspectos pontua a necessidade de uma atitude pro-ativa por parte dos estudantes que se lançam na aprendizagem on line que requer disciplina, autonomia e competências metocognitivas de aprendizagem: “[...] aprendizagem as quais, no ambiente on-line, são definidas a partir da capacidade de aprender a aprender individual e colaborativamente através da pesquisa, da interacção e da construção partilhada e conjunta do conhecimento.” (p. 164). Saleienta que o objeto de aprendizagem não se reume ao conteúdo mas também ao processo que envolve a colaboração e a própria modelagem dos processos de ensino/aprendizagem.

Na definição de objetos de aprendizagem toma como referência as Ciências da Computação e a definição de Wiley (2002) como “qualquer recurso digital que pode ser reutilizado para suportar a aprendizagem”, pequenas unidades de instrução. A flexibilidade dos objetos de aprendizagem está pautada em duas características: a combinação (capacidade de adaptação a diversas plataformas e propostas educacionais) e a granularidade (relativa a dimensão do objeto). O autor amplia essa perspectiva ao analisar que para as comunidades colaborativas, os objetos de aprendizagem possuem organização e complexidades próprias e devem possibilitar a utilização em processos de troca e construção de conhecimento mais complexos do que na aprendizagem individual.

Concordo com o autor que a construção de comunidades de aprendizagem on line envolve quastões mais complexas que apenas a disponibilização de plataformas de acesso a conteúdos. Depende da interação, participação e engajamento dos sujeitos na busca por objetivos de aprendizagem. Acrescento que a questão metodológica também influencia. Pessoalmente, não gosto do modelo de educação on line que utiliza a tutoria, vejo que o processo de ensino-aprendizagem e sua organização fica bem fragmentado: uns elaboram o curso, outros formatam, outros (os tutores) acompanham algo que não conceberam e nem participaram da elaboração. Penso que o Moodle é uma Plataforma que possibilita uma maior integração dos processos: o mesmo professor pode elaborar, acompanhar  os alunos e modelar seu ambiente de aprendizagem; mas isso para turmas reduzidas, pois não é comunicação em massa!!!
No plano das políticas públicas, a educação a distância on line tem aparecido como solução para a democratização da formação, após todo um longo processo de exclusão da maioria dos brasileiros, especialmente do Ensino Superior e para os processos de diplomação de professores. Muitas vezes, os projetos de formação seguem uma lógica de aligeiramento da formação que não contribui qualitativamente com uma educação democrática e de qualidade.

O leitor, o texto e o hipertexto


Ao refletir sobre o hipertexto como não remeter ao contexto social da leitura e da escrita, pesquisado  e analisado por Roger Chartier. Denise B. Braga resgata os estudos do autor para falar sobre “a escrita híbrida na Internet”: as marcas de oralidade que caracteriza a linguagem dos chats; a hibridação entre a escrita, oralidade, imagem; a hipertextualidade materializada na estrutura dos textos da internet, a hipermídia. Da leitura fica como idéia principal a percepção de que as linguagens se transformam em função dos suportes, das transformações de cada linguagem e dos contextos de leitura. Assim, as marcas gráficas que hoje conhecemos como a organização em parágrafos, as colunas, a pontuação foram incorporadas a escrita gradativamente o que permitia maior autonomia do leitor. Essa percepção da construção histórica das linguagens pode servir de base para desmistificar alguns preconceitos em relação a escrita da internet: que a internet não estimula a leitura e escrita; que a escrita é fragmentada e não-linear e portanto sem lógica. Essas afirmações partem de uma percepção da escrita como uma linguagem estática que não sofreu transformações ao longo do tempo.
Aquino (2006) afirma que a  estrutura do hipertexto surge após a Idade Média, mas o termo seria utilizado em 1965 por Ted Nelson no projeto Xanadu  e exemplificado nas experimentações do matemático/físico Vannevan Bush em 1945. As remissões, índices pessoais, comentários dos leitores relacionando com outras obras, anotações nas margens (chamadas de marginalias) eram marcas de uma leitura hipertextual. Do projeto Memex  de V. Bush a linguagem HTML  e os protocolos HTTP de Berners-Lee, os sistemas criados buscam materializar a complexidade da organização do pensamento humano, suas trilhas associativas, sua forma de armazenamento e resgate das informações, as conexões e redes neurais.
A argumentação da autora, questionável, é de que a Web mutila a as práticas bilaterais e perspectiva de coletividade das primeiras experiências de escrita hipertextual. O argumento talvez seja válido se pensarmos nas primeiras experiências da internet, onde apenas conteúdos eram disponibilizados (sites de instituições, portais de jornais e revistas) com poucas possibilidades de interatividade, apenas a interação reativa (definida por Alex Primo) “[...]pois o usuário fica limitado a escolher entre uma quantidade de links e a simplesmente navegar por entre este mar de opções, porém incluir novos rumos, ou
seja, novos links, isto não lhe é facultado” (p. 07). Primo apresenta uma classificação dos hipertextos de acordo com caráter  interativo: hipertexto potencial, hipertexto colagem e hipertexto cooperativo, este último permitindo a construção coletiva entre criador e usuário.
Se pensarmos na Web 2.0 outras perspectivas estão em ação: a comunicação, a interatividade, a autoria, a indexação e a construção de conhecimento tendem a coletividade. Sites de relacionamento, fóruns de discussão,chats, comunidades virtuais, blog, fotologs, Wikipédia, Twiter são exemplos. O próprio texto faz referência a essa nova realidade na Web  a partir dos estudos de Doughtey e O’Reilly que “enumera sete princípios da Web 2.0, dos quais três se fazem de extrema importância neste estudo: a) Controle original excedente, difícil de recriar as origens dos dados que os tornam mais ricos quanto mais pessoas os usarem; b) Confiar nos usuários como co-desenvolvedores; c) Aproveitar a inteligência coletiva (O’reilly, 2005, online)”. Interessante perceber como muitas vezes nossas escolhas são influenciadas por opiniões de internautas com os quais não mantemos nenhuma relação de confiança ou contato próximo. Pessoalmente, busco essas avaliações quando vou comprar algum produto na internet, mas também quando busco outros tipos de informação. Lógico que somente a avaliação dos internautas não determina minhas escolhas, outros fatores são importantes, mas leio os comentários.

A leitura vai além da decodificação do texto escrito. Ela envolve o entendimento sobre o escrito, sobre as entrelinha (o que está subentendido), sobre o tempo/lugar de onde fala o autor (contexto de produção), as relações de significação do leitor. Aliás, como não pensar na leitura como uma aventura hipertextual? Tenho gostado muito da leitura dos blog dos colegas, tem trazido outras reflexões e os comentários também! Os comentários nos blogs tem uma significância enorme para a interatividade e construção coletiva (responde por 30% da blogosfera), além de possibilitar redes de relacionamento entre os comentaristas. Estamos no caminho da construção do webrings (R. Ricuero), mas será que manteremos essa rede após a disciplina? Desejo que sim.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Desafios da democracia e da ciberdemocracia

Num país de pouca tradição democrática como o Brasil, saído recente de um período de ditadura civil-militar, que ainda mantém altos índices de exclusão digital, pensar na instauração de uma ciberdemocracia parece algo utópico e distante. Mas como “os sonhos não envelhecem” e os autores com quem dialogo nesse texto (Lèvy e Lemos, 2010) não se eximem de pensar os desdobramentos da ciberdemocracia ainda como uma utopia, um caminho de emancipação da humanidade (conectada), me lançarei nesse devir analítico.


Antes de chegar nos autores citados, retomarei algumas idéias que considero importantes para a reflexão aqui proposta e que podem suscitar um debate bem rico. A primeira seria a relação entre as esferas pública e privada e a constituição do que se pode denominar de democracia moderna. Para Patrocínio (2008) o conceito de cidadania é uma construção histórica, cultural, e não ontológica, que remete às raízes gregas da vida na pólis. Ao conceito foram associadas as relações de poder, as questões de representação, de direitos e deveres e, posteriormente, condicionada às identidades nacionais com a estruturação dos Estados-nação na época Moderna. Para o autor, dessa herança Greco-romana, surge uma concepção simplificada de cidadania, associada apenas ao funcionamento das instituições políticas, denotando mais conformidade do que participação e sem um engajamento com outras dimensões sociais. Também salienta que o termo é tratado como uma significação neutra:


Muitas considerações sobre a cidadania vêem-na como uma categoria de algum modo neutra, ao longo dos tempos, na qual se incluem todo o tipo de estatutos sociais, como se na verdade todos participassem de forma livre e paritária na vida social, política, económica ou cultural de cada uma das sociedades em que se integram. (p. 48)


Já Chauí (2007) argumente que a crise de valores que vivenciamos nos remete a submissão da esfera pública, enquanto espaço de negociação de valores sociais, aos interesses privados e privatistas de uma classe social; o Estado, mediador das relações na esfera pública assumindo um caráter privatista: “Declara-se o fim da separação moderna entre o público o privado, em benefício do segundo termo contra o primeiro, fazendo-se o elogio da intimidade e criticando-se os pequenos poderes na família, na escol e nas organizações burocráticas[...]” (p. 490). No Brasil, argumento que o Estado historicamente não se configurou como uma esfera de mediação entre os interesses dos grupos e classes sociais, sendo constituído a partir de acordos políticos numa perspectiva paternalista, em relação a aristocracia agrária e a pseudo-burguesia, e patrimonialista e autoritária em relação à gestão pública e . Por conseguinte, a participação da sociedade brasileira nos espaços de deliberação sempre foi muito limitada, resumindo-se a momentos (como a eleição, os plebiscitos) e não a um processo de engajamento e decisão coletiva. As revoltas, mobilizações, os movimentos organizados sempre foram duramente reprimidos para se criar um imaginário coletivo, um mito de uma sociedade pacífica e sem conflitos. É nesse contexto que busco pensar nossa ciberdemocracia.


O argumento principal dos autores é que a cibercultura cria as bases para uma nova transformação da esfera pública numa nova esfera pública mundial a partir de 03 tendências do ciberespaço: a interconexão, a criação de comunidades e a propensão à inteligência coletiva. Tais tendências influenciariam positivamente, segundo Lèvy, os quatro domínios da democracia: aquisição de informação, expressão, associação e deliberação dos cidadãos. O potencial de comunicação e de produção de conhecimento que é viabilizado pelas redes telemáticas cria um novo espaço de opinião pública (fragmentado, disperso geograficamente, plural), de uma configuração diferente dos espaços modernos (praças, cafés, mercados) que emergiram com a imprensa e com a mass media. As mídias pós-massivas, da Web 2.0, empoderam os diferentes sujeitos conectados a opinarem e decidirem sobre os mais variados assuntos, do supérfluo ao essencial. Lemos afirma que “não é novidade que a relação entre a comunicação (a potência social) e a técnica (a potência da ação) está na base da dimensão política” (p. 28). A cibercultura traz a possibilidade de concretização de um ideal iluminista de Estado: a publicização das ações do governo ou o Estado transparente. Os exemplos se multiplicam e mesmo no Brasil (cujo Estado tem uma tradição autoritária) há iniciativas nesse sentido como o portal Transparência Brasil da Controladoria Geral da União. Mas a publicização dessas informações torna o controle social sobre o governo pela sociedade civil mais efetivo? Penso que ainda não há o suporte de outras instituições como o judiciário, o sistema educacional e a mass mídia para uma ação de cidadania mais consciente, aliás, essas instituições atuam mais como repressoras das mobilizações.


Nesse momento de reflexão, apenas um recorte diante de um tema tão complexo, vejo o esvaziamento dos espaços democráticos de debate e deliberação em diversas instituições, mas em especial na universidade. Cada vez mais as decisões são centralizadas e hierárquicas, estabelecendo-se uma lógica feudal de organização dos Conselhos Superiores e de subordinação dessa autarquia aos direcionamentos dos governos, no melhor estilo suserania e vassalagem (as instituições mais obedientes – aquelas que produzem os resultados esperados e que são adeptas do pragmatismo liberal – recebem mais incentivos e recursos financeiros). Um paradoxo para uma instituição que surgiu em plena Idade Média como um espaço de formação de intelectuais (Le Goff) que se estabelecia por uma lógica aberta, de debates e de intercâmbio de conhecimentos, bem distinta de outras instituições feudais. Temos a configuração da universidade instrumental ou operacional (Chauí) que visa a realização de metas do Estado. Estabelece-se uma equação perversa: diminuem-se os espaços de deliberação coletiva, aumentam-se os mecanismos de opressão (assédio moral, processos administrativos disciplinares). A vivência no sindicato trouxe uma visão política mais ampla sobre a universidade e mais engajada na luta por um projeto de universidade democrático e de relevância social.

domingo, 1 de abril de 2012

Santaella e o pós-humano

De antemão a expressão pós-humano, usada no título do artigo e do livro “Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura” (SP: Paulus, 2003) me causou um certo desconforto por remeter a imagem do cyborg ou do andróide presente em algumas películas (O Exterminador do Futuro, Blade Runner) e a uma perspectiva de sujeição da história a um presentismo tecnológico, algo desesperador e incômodo para uma historiadora. Comecei a leitura com um pé atrás, tenho que confessar. No último parágrafo, entretanto, a autora apresenta sua justificativa para a escolha do termo: a aproximação dela com o campo das artes levou a optar pelo termo que já é usado desde a década de 90 por artistas e teóricos da arte, ademais “ a expressão [pós-humano] tem sido usada para sinalizar as grandes transformações que as novas tecnologias da comunicação estão trazendo para tudo o que diz respeito à vida humana, tanto no nível psíquico quanto social e antropológico” (p. 31). Mas não precisei chegar ao final do texto para perceber que o viés apocalíptico não fazia parte das argumentações da autora e muitas análises foram mais moderadas.

Ao contrário do extremismo que marca algumas análises sobre a cultura digital e as implicações das TIC na organização social, Santaella faz a defesa da necessidade de análises e estudos que busquem compreender a complexidade da chamada cultura do virtual ou cibercultura, salienta que devemos rever categorias e conceitos visando uma compreensão menos superficial desse contexto . Nesse propósito, traz a organização do desenvolvimento (ñ sei se é a melhor palavra) cultural em seis eras ou seis formações culturais, que a autora pondera não são etapas lineares pois “[...]há sempre um processo cumulativo de complexificação[...]”. Essa proposição traz a idéia de transformações processuais em que um aperfeiçoamento tecnológico é fruto de acumulações de conhecimentos e aprimoramento de invenções/intervenções. Lembrei-me dos tempos da Escola Técnica, parecia que o transistor era a grande invenção e que tudo seguinte era resultado, na verdade, de um processo de minituarização: um C.I continha vários transistores, depois o processador (o 8086) continha vários C.I., nossa sou da época do XT, estudei linguagem Assembler, que hoje parece a pré- história dos computadores. Mas para quem acompanhou esse desenvolvimento mais de perto, parece menos impactante, menos assustador. As empresas de telecomunicações começavam a fazer investimentos em fibra ótica na estrutura da transmissão de dados, e sem essa infraestrutura pouco avanço seria possível para a configuração posterior da internet. Mas a internet parece que acelerou esses processos. Fecha parêntese!

Retomando as eras de Santaella, ela define seis tipos de formações: a cultura oral, a cultura escrita, a cultura impressa, a cultura de massas, a cultura das mídias e a cultura digital. A cultura das mídias caracterizada pelo consumo individualizado da informação e a mistura entre linguagens e meios; situa na década de 80 quando os equipamentos e dispositivos permitiam uma cultura do disponível e do transitório. A cultura digital, ou cultura do virtual ou cibercultura caracteriza-se pela convergência das mídias e “[...] pela exacerbação que a produção e circulação da informação atingiu nos nossos dias[...]”. Ela critica a idéia de que as transformações culturais são determinadas apenas pelas tecnologias e meios de comunicação, mas que é necessário entender as transformações nas linguagens e pensamentos que condicionam as formações culturais.

Outro ponto que quero destacar é a pertinência de se pensar a cultura digital vinculada ao capitalismo global e os desdobramentos dessa relação. Santaella afirma que os investimentos do capital de sido significativo nas TIC o que resulta também em sua disseminação. Nesse âmbito nunca é demais lembrar que o desenvolvimento e a produção de equipamentos computacionais, especialmente nessa configuração econômica globalizada, está pautada na diminuição de custos de produção via a super-exploração da mão-de-obra nos países que produzem o hardware, os chamados Tigres Asiáticos. Um artigo publicado no site Pijama Surf denunciava-se a exploração da mão-de-obra infantil nas fábricas de iPhone, iPad etc instaladas na cidade de Shenzhen, na China, como aquelas crianças e adolescentes de 13 a 16 anos, que recebiam 70 centavos por 16 h diárias de trabalho,estavam excluídos da possibilidade de aquisição desses produtos e como isso era contraditório com todo o marketing que envolvia/envolve o lançamento de cada produto da Apple. Claro que essas questões não se resumem a uma discussão tecnológica, mas as opções sociais e políticas que resultam nesse estágio ou fase de nosso processo civilizatório.

Bem, as leituras propostas (ainda não dei conta de todas L) e essas postagens têm permitido sistematizar e aprofundar muitas reflexões. Talvez não tenha se configurado como um canal de comunicação, isso é perceptível pelos acessos, comentários e outras interações (ou melhor, pela falta delas). Mas tem sido um divã, onde me deito e dou asas ao pensamento, nas minhas tardes/noites de domingo (aliás, ô dia que a internet é lenta!!!).

domingo, 25 de março de 2012

As etapas tecnológicas, as TIC, as leituras e Hugo Cabret



A postagem no blog foi antecedida pela assistência ao filme de Scorcese “A invenção de Hugo Cabret”, película marcada por uma construção poética em torno da invenção do cinema, bem diferente do discurso ideológico forte e da crítica contundente que sempre marcou a produção do diretor. Ele próprio, o cinema, sendo a invenção de sonhos, propõe uma linguagem que entremeia ficção e realidade, o olhar e a tela. No geral, o filme fala dos anseios e sonhos por trás das invenções, esse processo de artificialização da existência (Arendt, 2004), que dá forma a uma imaginação individual e sintetiza, talvez, a mentalidade coletiva de uma sociedade. As engrenagens dos relógios mecanizando um tempo antes marcado por processos naturais, a perna mecânica do guarda da estação que ao mesmo tempo que permite seus movimentos tirados pela Grande Guerra, o constrange diante da florista, a grande biblioteca onde os livros (essa fantástica tecnologia) transportam os leitores para outros tempos, outras sociedades (como Julio Verne e suas viagens ao desconhecido), os trens e sua velocidade encurtando distâncias, esse elementos compõem a narrativa que nos envolve no filme. Num diálogo bem significativo na biblioteca o menino diz a jovem amiga ‘tudo tem um propósito, até as máquinas: os relógios dizem as horas, e os trens te levam a algum lugar, elas fazem o que deveriam, como Ms. Labise. talvez por isso as máquinas quebradas me deixam tão triste, elas não fazem o que deveriam. Talvez seja igual com as pessoas. Se você perde seu propósito, é como estar quebrado’ expressa-se sabiamente Hugo Cabret.



Bem, diz a música que “O desejo é o que torna o irreal possível”. Se esse desejo de artificialização da existência faz parte do que é nossa condição humana, de nossa forma de nos inserir no que denominamos de mundo, os propósitos que movem essa relação homem-técnica, tecnologia –sociedade são transformados em cada contexto histórico. Nesse sentido, as duas grandes guerras expõem o quão contraditório é processo civilizatório ocidental e como as estruturas de poder se apropriam do conhecimento tecnológico para se ‘solidificar’ (no sentido de Bauman). As etapas do processo tecnológico reproduzidas por Alex Primo, a partir da argumentação de Lemos, coloca como os propósitos de dessa relação sociedade-tecnologia são ressignificados também em função do próprio desenvolvimento das técnicas: da fase da indiferença, marcada pela mistura entre arte, religião, ciência e mito até a fase do conforto ou modernidade, onde a ciência e a tecnologia se tornam protagonistas da cosmovisão, chegando a fase atual, da ubiqüidade.
Nesta chamada fase da ubiqüidade, um ponto interessante discutido no texto de E. Correa diz respeito ao controle na rede: a comunicação na rede depende da transmutação em protocolos que funcionam como uma ‘identidade’ dos sujeitos e objetos que circulam e se comunicam na rede, uma codificação das trocas: “em termos práticos, se os protocolos são construídos pelo próprio ser humano para possibilitar as trocas em rede, então é condição inerente da rede a existência do controle da forma de acesso e a construção lógica das informações que nela circulam.” (p. 49). Isso redimensiona as esferas pública e privada da vida social. A comunicação coletiva e a troca de informações por meio de dispositivos digitais, a busca por condições e por um espectro de conectividade caracteriza, segundo Corrêa (2009), a cibercultura, cria uma nova “instância de compartilhamento do público e do privado”, um espaço paralelo.



A sociedade em rede, conectada e informacional vive uma crise de propósitos? Temos essa impressão quando trazemos esse diálogo para o contexto educacional (durante as formações no NTE os professores questionam para que mesmo a utilização das TIC numa escola que não tem merenda, não tem funcionários de apoio, não tem papel?) e também para as discussões mais cotidianas ou do senso comum. O discurso do pragmatismo é mais fácil de combater e contrapor. Pensar coletivamente os propósitos da ciência e tecnologia é algo mais complexo, exige a implicação e engajamento dos sujeitos nisso. E penso que tais questões não invalidam pensar no potencial do atual desenvolvimento tecnológico e sua penetração nos nossos saberes e vivências (CORRÊA, 2009). Mais uma vez me remeto a uma música de Gil “Queremos saber quando vamos ter raio laser mais barato”...



As leituras e discussões nesse primeiro mês do doutorado têm me trazido mais inquietações do que respostas, fui realmente tirada da posição de conforto das construções intelectuais que me trouxeram até aqui. Me sinto como na imagem ao lado, ao mesmo tempo consciente de ser uma mulher do meu tempo, condicionada pela finitude de minha existência e um pouco presa nos tempos/espaços institucionais. Mas penso que o processo é esse mesmo.E são essas reflexões provisórias, as vezes desconexas e meio caóticas, que tem ajudado a reconstruir o meu lugar nessa ampla discussão em Educação e Tecnologias.



segunda-feira, 19 de março de 2012

A ciência, a sociedade, a escola

Bonilla (2005) aborda em seu artigo os dilemas que envolvem a produção de conhecimento científico frente as transformações culturais e sociais atuais “.[..] as transformações científicas e tecnológicas estão intimamente relacionadas com as alterações que vêm ocorrendo nas relações e nas formas de organização social”. Aborda como os conceitos de verdade e realidade se transformaram ao longo da história, vinculados a uma ordem social e a uma cosmovisão. Muitos dos questionamentos a que está submetida a produção do conhecimento científico decorre de uma crise na crença do progresso e da ciência desencadeada após as Grandes Guerras do século XX quando todo conhecimento técnico/científico acumulado, antes associados a idéia de civilização foram instrumentos da “barbárie” da disputa entre as potências industriais; desde então qualquer pressuposto de neutralidade da ciência estava “em xeque”, pois as implicações sociais e políticas que envolvem a produção científica não são condicionantes fundamentais para entender seus direcionamentos.


Sobre a produção de conhecimento na escola, penso que há alguns aspectos a se considerar: escola e os sistemas educacionais trabalham numa lógica reprodutivista de conhecimento, o que muitas vezes inibe a pesquisa e a produção de conhecimento e cultura a partir do contexto educacional, como idealizava P. Feire, Giroux e outros autores; a concepção de ciência abordada tb envolve uma perspectiva total, típica da modernidade que depositava na Ciência toda responsabilidade de explicação da realidade, o principal parâmetro de saber a partir do qual os outros são julgados; as simplificações em nome da chamada “transposição didática” abordam a ciência; a abordagem do conhecimento científico enquanto produto e não como processo, esvaziando sua historicidade, conforme Leite (1993).

"Sei que a arte é irmã da ciência
Ambas filhas de um Deus fugaz
Que faz num momento
E no mesmo momento desfaz
Esse vago Deus por trás do mundo
Por detrás do detrás"

Quanta - Gilberto Gil




A ciência trabalha com recortes e com verdades provisórias pois o real não se reduz a representação que se faz dele através do conhecimento científico. Penso que é importante conhecer-se o processo de construção da ciência, os condicionantes envolvidos, as motivações, as subjetividades, as submissões, os avanços e retrocessos, a divulgação e silenciamentos desse conhecimento, ou seja, a opacidade que envolve o fenômeno em si, mas que envolve tb sua divulgação social.

domingo, 18 de março de 2012

Outras reflexões a partir de Bauman

Vivenciar esses momentos de transformações e produzir reflexões lúcidas sobre o contexto atual requer a habilidade de dialogar com diferentes teorias e campos do conhecimento para buscar a construção de nossas próprias significações. Na leitura do texto proposto de Bauman, num primeiro momento, fiquei envolvida com suas argumentações sobre a “modernidade líquida”, um outro momento, uma outra fase da modernidade (antes contida na metáfora do relógio como pontua A. Primo, ou da solidez em contraponto com a fluidez que caracteriza o momento atual); a construção textual de Bauman realmente cria uma rede de significações que envolve as teoria, o contexto social, as suas vivências e seu cotidiano. Busquei situar o autor em uma determinada corrente filosófica (seria Bauma pós-moderno? Marxista também não era), mas a cada página de leitura essa identificação ficava ainda mais confusa por que o autor, no meu entendimento, se deteve mais a um esforço de compreensão da sociedade atual do que a um dogmatismo conceitual, o que em nenhum momento trouxe incoerência e inconsistência a seus argumentos.

No vídeo outras nuances do seu pensamento afloram. A condição social do mundo pós-moderno é marcada pela passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo e pela fragmentação da vida humana (vida em episódios). Nesse contexto situa 02 processos irreversíveis: a interconexão (o mundo interdependente) e o dilema ambiental (limites de suportabilidade do planeta). No plano político, nos diz que há perigos para a democracia, pois o modelo de democracia atual está pautado nos limites do Estado-nação e há necessidade de instituições que dêem suporte a uma democracia global; a democracia entra em crise pois o modelo de Estado democrático construído no pós-guerra, atualmente, não consegue oferecer as condições mínimas de cidadania que prometeu, terceirizando suas funções (a ex. das atividades de ONG, instituições assistencialistas).





O sociólogo também situa as diferenças entre os laços sociais anteriormente construídos, baseados na idéia de comunidade, e os laços da rede digital pautados em 02 atividades básicas: conectar e desconectar. Interessante que o autor coloca como “o desconectar” caracteriza as relações nas redes sociais, o que no contato físico é mais difícil, traumático, no ciberespaço, basta um clique. Pessoalmente, demorei para entender essa lógica nas redes sociais, minhas estatísticas de amigos nunca subia na mesma proporção que a de outras pessoas que utilizavam os mesmos espaços e, na verdade, me deixava angustiada ver tanta gente ‘linkada’ ao meu perfil, pessoas que eu nem conseguia efetivamente interagir. Na verdade, é essa possibilidade de desconectar que motiva as pessoas a estabelecerem tantos “laços virtuais”; no plano físico buscamos sempre limitar a quantidade de pessoas com as quais interagimos e que podem gerar algum desconforto ou conflito. Para além dos espaços públicos não civis, que Bauman descreve no livro, nos outros espaços de interação (a sala de aula por ex.) vale a máxima “quanto menos somos, melhor passamos”.Na sua reflexão sobre a vida, a existência, coloca a “ a vida como criação” e como a felicidade está relacionada com a capacidade de dar sentido e forma a vida que se quer “há muitas formas de ser feliz”, ligadas segundo Bauman a 02 fatores: o destino (os condicionantes que não são escolhidos por nós) e o caráter; a vida de Sócrates surge como exemplo de vida escolhida. Há alguns meses, o senador Cristovão Buarque, inspirado talvez num movimento social que pleteia a felicidade como direito de cidadania (não recordo aqui o nome do movimento), pautou essa discussão no plano político brasileiro, ao pautar o debate sobre a inclusão desse tão complexo conceito entre os direitos fundamentais, ao lado de outros como saúde, educação, segurança. O que definiria do ponto de vista jurídico a amplitude ou limite a realização desse direito, carregado de ambivalência, contradições e subjetividades? No plano mais coletivo, a civilização vive sua ambivalência no dilema entre segurança e liberdade, e que em cada momento tendemos a abrir mão de um para consolidar o outro e construir o seu padrão civilizatório atual(no momento atual estamos buscando mais segurança, mesmo ao custo de abrir mão de certos padrões civilizatórios de liberdade).