domingo, 7 de outubro de 2012

Software Livre: questão política ou técnica?


Conheço pouco sobre o tema, apesar de defender diante dos professores que era a uma boa opção no caso do Proinfo. O  meu principal argumento era o valor gasto com licenças Windows poderia ser investido em outras áreas ou projetos. Para aproximar do tema, foi fundamental o livro de Sergio Amadeu “Software Livre: a luta pela liberdade de conhecimento” (2004). Apesar de não ser uma obra recente e, também por isso, traz noções básicas do tema. Na leitura foi esclarecido que o Software Livre (SL) tem mais relação com a liberdade de expressão do que com os custos para uso, “software livre não significa software não-comercial” (p.14).
 O autor milita em favor do software livre que define como “Socialmente justo, economicamente viável e tecnologicamente sustentável”. O autor situa a partir de 1980 a difusão do movimento software livre que defende o compartilhamento livre ou auto-organizado do conhecimento tecnológico; tem como principais defensores os hackres*; o ciberespaço é o principal espaço de compartilhamento e difusão desse movimento. O movimento encontra a oposição das grandes empresas de software que lucram com os licenciamentos de programas e sistemas e os políticos financiados por essas empresas. 

* Primeira lição: hacker é diferente de cracker, estes últimos utilizam os conhecimentos de informática para violar sistemas e cometer crimes eletrônicos.

A digitalização traz a característica da reprodutividade técnica da informação sem a perda da qualidade original, o que permite o compartilhamento de softwares, programas, sistemas (são sinônimos?) sem que o envio dessas informações resulte em perdas para o criador ou disseminador; o conteúdo também não perde a qualidade. Então a resistência ao software livre tem fundo político-econômico e não técnico.

*Segunda lição: as quatro liberdades dos Softwares Livre são de uso, cópia, modificações e redistribuição. É pirataria isso? Não dentro da concepção de SL em que o respeito a autoria não corresponde a propriedade privada intelectual (software proprietário); no SL existem autores e não donos. A General Public Licence (GLP) – Licença Pública Geral -  é um tipo de licença que garante os 04 princípios do SL citados, sendo que o copyleft impede que os softwares derivados se tornem softwares proprietários

O SL tem como característica básica para permitir os pilares da liberdade descrita acima ter o código-fonte aberto (Open source). Entretanto há diferença entre software gratuito (que pode ser proprietário, ex. Adobe Reader), software aberto (que não permite as 4 liberdades) e software livre (open source e livre, ex. GNU Linux).
O histórico do movimento SL é bem interessante, desde a iniciativa de Stallman do MIT  com o projeto GNU, a criação do Linux por  Torvalds e a filosofia BSD (Berkerley Software Distribuition) que mantém os princípios do SL. A adesão de desenvolvedores em todo mundo aos projetos de SL é impressionante (100 mil em torno do OpenOffice.org)
Os estudos de Alan Story, de 2001, mostrou que os principais beneficiários das atuais leis de direitos autorais são os países ricos, a ex. do EUA que faturaram US$ 36,5 bilhões em royalties e licenças de propriedade intelectual em 1999; só o Brasil pagou US$ 1 bilhão....as cifras são impressionantes!!!! “Como a tendência da economia capitalista é se tornar crescentemente baseada em informações e em bens intangíveis, a disputa pelo conhecimento das técnicas e tecnologias de armazenamento, processamento e transmissão das informações assume o centro estratégico das economias nacionais.” (p. 06).

*Terceira lição: quando se compra um software proprietário (tipo os da Microsoft), apenas adquirimos a licença de uso e não o produto.

De um ponto de vista mais geral, os softwares são considerados bens inatingíveis, não-rivais, ou seja, o seu uso não exclui o uso por outras pessoas simultaneamente “O produto físico é presente e as idéias são onipresentes” (p. 27). Isso se contrapõe a nossa concepção burguesa de uso privado e individual dos bens sociais. Nossa mentalidade privatista e individualista impede que consolidemos, por ex., a carona solidária entre vizinhos, colegas de trabalho ou escola/faculdade e a cidade se entope de carros em detrimento do transporte coletivo.

Discordo do autor ao afirmar que o desenvolvimento da ciência só foi possível graças a liberdade de transmissão e ao compartilhamento do conhecimento, pois carrega o pressuposto da liberdade plena da ciência. Sabemos que o conhecimento científico tem uma liberdade condicionada, por paradigmas hegemônicos, por ideologias de agências de financiamento, cuja autonomia científica depende da correlação de forças entre a comunidade científica e as estruturas de poder. (foi só um parêntese). Mais interessante é a discussão sobre o valor das ideias e as implicações da propriedade intelectual sobre esse bem social, assim como os interesses envolvidos nas leis de patente na Europa e EUA (cap. 4). As informações desmentem a falácia de que há grandes investimentos das corporações na invenção e desenvolvimento dos softwares e sistemas, o que justificaria as restrições do uso de suas aplicações e a cobrança de direitos autorais.

Experiências com o SL como base tecnológica se espalham pelo Brasil e pelo mundo. O caso de Extremadura, província de uma região pobre na Espanha, foi emblemático na decisão por autonomia do software como estratégia para o desenvolvimento local, a partir de fins de 90. No Brasil, a adoção do SL pelo governo se deu a partir de 2003, em torno de cinco argumentos:
1) argumento macroeconômico,
2) argumento de segurança,
3) argumento da autonomia tecnológica,
4) argumento da independência de fornecedores,
5) argumento democrático.

Chama a atenção os gastos com licença de uso de software proprietário para informatização de 100 mil escolas públicas: cerca de US$ 300 milhões a cada 2 anos. Nesse aspecto, meu argumento inicial não é de todo secundário, em vista da necessidade de investimento na infraestrutura de conexão banda larga e manutenção periódica dos equipamentos. A segurança dos dados e informações e a perspectiva de independência tecnológica são argumentos em favor do SL.

“O software livre reforça a ideia e a constituição de padrões públicos”.(p. 8). Será possível que essa mentalidade se consolide sem mudar a concepção de propriedade privada que está na base da sociedade capitalista, com a estrutura política e jurídica entrincheirada na sua defesa? Só a mobilização social para dizer mas, de antemão, muitos princípios naturalizados no modelo de sociedade capitalista, como o direito privado aos bens culturais, podem ser colocados em xeque, especialmente através de movimento que não tem líder (que poderia ser cooptado facilmente) , mas um princípio de liberdade que se dissemina.

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