Magda Soares é uma importante referência para mim quando
se fala em Letramento. Tive contato com a autora pesquisando materiais sobre o
tema para as formações no NTE. Em um dos textos dela que discutimos (Novas
Práticas de Leitura e Escrita: Letramento na Cibercultura, 2002) há a
problematização das diferentes perspectivas de letramento, por isso o uso do
plural, revelando “a diversidade de
ênfases na caracterização do fenômeno” (p. 144). Atualmente, vemos com
frequência no vocabulário pedagógico o conceito de letramento como uma ação
mais ampla e complexa de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita
que o conceito de alfabetização não contemplava. Esse último agora entendido
como um dos requisitos para se chegar à competência mais sofisticada de estar
letrado. No entanto, penso que nos escritos de Paulo Freire, especialmente as
obras voltadas para Educação de Adultos, o próprio conceito de alfabetização
proposto já rompia com uma perspectiva instrumental de aprendizado da base
alfabética, englobava a discussão do contexto social, a valorização dos adultos
como sujeitos de linguagem e de sua história, os mecanismos de exploração do
sistema capitalista, conjugava a leitura do mundo e a leitura da palavra
visando à conscientização dos sujeitos. Ainda no mesmo texto citado, Magda
Soares traz as concepções de Tfouni e Kleiman, autoras que se referem ao
letramento como práticas sociais de leitura e escrita, o que englobaria também
os impactos da escrita para os contextos sócios históricos para Tfouni, o que o
conceito de alfabetização não abrange, mas aponta para outra definição: o estado
ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de
escrita (p. 145).
A discussão acerca da alfabetização e de práticas mais
sofisticadas de escrita e leitura (letramento) começa a tomar corpo em vários
países em meados da década de 80. No Brasil, os dois conceitos aparecem
imbricados, ao contrário de países como EUA e França onde as discussões são
conduzidas separadamente, pelo fato de toda população ter passado pela educação
básica e, assim, domina a escrita. Entre nós, Soares (Letramento e
alfabetização: as muitas facetas, 2004) indica que o conceito de alfabetizado
vem se transformando no sentido da aproximação com o conceito de letramento
(competência no uso da leitura e escrita). A autora traz o argumento
interessante sobre o fracasso da aprendizagem da língua escrita que são
mostrados nos resultados de diversas avaliações externas (SAEB, ENEM, PISA,
Prova Brasil e outros): a perda da especificidade e importância da
alfabetização nos processos educacionais de aquisição de escrita que aparece
diluída entre as diversas atividades “em relação às demais aprendizagens e comportamentos
na área da leitura e da escrita” (p. 9). Soares também apresenta entre as causas dessa situação
de fracasso na alfabetização, ou melhor, da ‘desinvenção da alfabetização’, fatores
pedagógicos que vejo serem repetidos pelos professores que atuam nas séries
iniciais sem muito eco nos sistemas educacionais: a organização das séries em
ciclos e a progressão continuada. Essa fala me surpreendeu! Vinda dos
professores é sempre desvalorizada pelos sistemas educacionais que consideram
suas bases pedagógicas sempre as mais avançadas. A autora também coloca as
mudanças de paradigma em relação ao conceito de alfabetização no Brasil e em
outros países, também como fator de diluição do seu significado: “um paradigma behaviorista, dominante nos anos de 1960 e 1970, é
substituído, nos anos de 1980, por um paradigma cognitivista, que avança, nos
anos de 1990, para um paradigma sociocultural” (p. 10). Aqui o paradigma
construtivista torna-se hegemônico na alfabetização escolar sob influência dos
estudos de Emilia Ferreiro e a psicogênese da escrita. A dogmatização desse
paradigma trouxe alguns equívocos sinalizados por Soares: 1. a ênfase na
dimensão psicológica da alfabetização negligenciou os aspectos linguísticos da aquisição
da leitura/escrita (onde o sistema alfabético e ortográfico é também composto
por relações convencionais e arbitrárias,ex. fonema-grafema); 2. O pressuposto
de que o paradigma construtivista excluía qualquer método de alfabetização (a
teoria sem o método), agora considerados métodos tradicionais por analogia aos
métodos até então prevalecentes (fonético, silábico, etc); 3. O falso
pressuposto que apenas com o convívio intensivo com materiais escritos a
criança se alfabetiza.
A escrita digital traz outros
desafios para pensar a nossa relação com a cultura escrita. Os modos de
comunicação na rede digital traz a configuração de uma escrita híbrida, segundo
Denise Bertoli Braga, onde marcas da oralidade, escrita e imagem se misturam
para compor os discursos que, muitas vezes, só tem significado na comunicação
na Internet. Para os radicais, a autora salienta que as outras linguagens
também passaram por diversas transformações na sua constituição em função dos
contextos sociais de uso ao longo do tempo; as linguagens são históricas, por
isso são dinâmicas e complexas. Como na cultura escrita, em que mesmo as pessoas consideradas iletradas ou as analfabetas interagem com os elementos dessa cultura, também na cultura digital 'os analfabetos digitais' interagem com os elementos da cultura digital, mesmo que seja com a ajuda de outros mais capazes (na maioria dos casos os mais jovens) na perspectiva vygotskyana e vão desenvolvendo sua ZDP através de estratégias para lidar com os desafios dessa sociedade.
Não avancei muito nas leituras propostas, me detive em Magda Soares, mas acho que
o debate em sala enriquecerá minhas reflexões. Vai uma charge em homenagem as políticas de inclusão digital que ainda serão debatidas.

Eu achei bacana sua postagem, Sigmar.
ResponderExcluirAinda que não tenha lido exatamente o texto que você comenta.
Não posso negar que o que mais gostei foi a charge!
#Marcante! Faz a gente "rir pra não chorar" com estas políticas "nas nuvens"...
Daniel,
ResponderExcluira criatividade da charge é bem significativa, remete as discussões sobre inclusão digital que fizemos nas aulas.