segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Letramentos: vivências plurais


Magda Soares é uma importante referência para mim quando se fala em Letramento. Tive contato com a autora pesquisando materiais sobre o tema para as formações no NTE. Em um dos textos dela que discutimos (Novas Práticas de Leitura e Escrita: Letramento na Cibercultura, 2002) há a problematização das diferentes perspectivas de letramento, por isso o uso do plural, revelando “a diversidade de ênfases na caracterização do fenômeno” (p. 144). Atualmente, vemos com frequência no vocabulário pedagógico o conceito de letramento como uma ação mais ampla e complexa de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita que o conceito de alfabetização não contemplava. Esse último agora entendido como um dos requisitos para se chegar à competência mais sofisticada de estar letrado. No entanto, penso que nos escritos de Paulo Freire, especialmente as obras voltadas para Educação de Adultos, o próprio conceito de alfabetização proposto já rompia com uma perspectiva instrumental de aprendizado da base alfabética, englobava a discussão do contexto social, a valorização dos adultos como sujeitos de linguagem e de sua história, os mecanismos de exploração do sistema capitalista, conjugava a leitura do mundo e a leitura da palavra visando à conscientização dos sujeitos. Ainda no mesmo texto citado, Magda Soares traz as concepções de Tfouni e Kleiman, autoras que se referem ao letramento como práticas sociais de leitura e escrita, o que englobaria também os impactos da escrita para os contextos sócios históricos para Tfouni, o que o conceito de alfabetização não abrange, mas aponta para outra definição: o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita (p. 145).


A discussão acerca da alfabetização e de práticas mais sofisticadas de escrita e leitura (letramento) começa a tomar corpo em vários países em meados da década de 80. No Brasil, os dois conceitos aparecem imbricados, ao contrário de países como EUA e França onde as discussões são conduzidas separadamente, pelo fato de toda população ter passado pela educação básica e, assim, domina a escrita. Entre nós, Soares (Letramento e alfabetização: as muitas facetas, 2004) indica que o conceito de alfabetizado vem se transformando no sentido da aproximação com o conceito de letramento (competência no uso da leitura e escrita). A autora traz o argumento interessante sobre o fracasso da aprendizagem da língua escrita que são mostrados nos resultados de diversas avaliações externas (SAEB, ENEM, PISA, Prova Brasil e outros): a perda da especificidade e importância da alfabetização nos processos educacionais de aquisição de escrita que aparece diluída entre as diversas atividades em relação às demais aprendizagens e comportamentos na área da leitura e da escrita” (p. 9). Soares também apresenta entre as causas dessa situação de fracasso na alfabetização, ou melhor, da ‘desinvenção da alfabetização’, fatores pedagógicos que vejo serem repetidos pelos professores que atuam nas séries iniciais sem muito eco nos sistemas educacionais: a organização das séries em ciclos e a progressão continuada. Essa fala me surpreendeu! Vinda dos professores é sempre desvalorizada pelos sistemas educacionais que consideram suas bases pedagógicas sempre as mais avançadas. A autora também coloca as mudanças de paradigma em relação ao conceito de alfabetização no Brasil e em outros países, também como fator de diluição do seu significado: um paradigma behaviorista, dominante nos anos de 1960 e 1970, é substituído, nos anos de 1980, por um paradigma cognitivista, que avança, nos anos de 1990, para um paradigma sociocultural” (p. 10). Aqui o paradigma construtivista torna-se hegemônico na alfabetização escolar sob influência dos estudos de Emilia Ferreiro e a psicogênese da escrita. A dogmatização desse paradigma trouxe alguns equívocos sinalizados por Soares: 1. a ênfase na dimensão psicológica da alfabetização negligenciou os aspectos linguísticos da aquisição da leitura/escrita (onde o sistema alfabético e ortográfico é também composto por relações convencionais e arbitrárias,ex. fonema-grafema); 2. O pressuposto de que o paradigma construtivista excluía qualquer método de alfabetização (a teoria sem o método), agora considerados métodos tradicionais por analogia aos métodos até então prevalecentes (fonético, silábico, etc); 3. O falso pressuposto que apenas com o convívio intensivo com materiais escritos a criança se alfabetiza.

 Ao ler o texto muitas questões sobre alfabetização e letramento foram esclarecidas. Não fui alfabetizada na escola, mas em casa por minha mãe que não teve oportunidade de concluir nem o ensino fundamental e me alfabetizava naquela cartilha do “U de uva, I de Ivo...”. Indiretamente também por meu pai que sempre gostou de ler jornais e revistas e lembro, ainda criança, de ficar por perto, olhando o jornal...um dia peguei o jornal e comecei a ler para eles. Quando fui para escola já sabia ler, escrever e somar/subtrair, mas fui matriculada numa turma de alfabetização. Já trabalhando com formação de professores, me perguntava: por que os Pedagogos com tanta bagagem e anos de estudo não conseguiam alfabetizar as crianças? Não entendia. Alguns colegas diziam que eles não eram formados para isso, não era objetivo do curso, que isso era obrigação das normalistas ‘professoras do Magistério’. Comecei a enxergar o problema de outro ângulo agora com essa leitura. Numa palestra de Saviani, durante o seminário Gramsci no Limiar do Século XXI: Pessimismo no Pensamento, Otimismo na Ação, na UNEB, em 2010, ele salientava que o processo de alfabetização tinha que ser um processo sistemático, constante, às vezes repetitivo e que envolvia a aprendizagem de convenções linguísticas, até chegar o ponto irreversível da alfabetização, o que em cada pessoa tem um tempo, o que não era viabilizado nesses programas aligeirados de alfabetização em massa (TOPA e outros derivados). Concordo com ele.

A escrita digital traz outros desafios para pensar a nossa relação com a cultura escrita. Os modos de comunicação na rede digital traz a configuração de uma escrita híbrida, segundo Denise Bertoli Braga, onde marcas da oralidade, escrita e imagem se misturam para compor os discursos que, muitas vezes, só tem significado na comunicação na Internet. Para os radicais, a autora salienta que as outras linguagens também passaram por diversas transformações na sua constituição em função dos contextos sociais de uso ao longo do tempo; as linguagens são históricas, por isso são dinâmicas e complexas. Como na cultura escrita, em que  mesmo as pessoas consideradas iletradas ou as analfabetas interagem com os elementos dessa cultura, também na cultura digital 'os analfabetos digitais' interagem com os elementos da cultura digital, mesmo que seja com a ajuda de outros mais capazes (na maioria dos casos os mais jovens) na perspectiva vygotskyana e vão desenvolvendo sua ZDP através de estratégias para lidar com os desafios dessa sociedade.
Não avancei muito nas leituras propostas, me detive em Magda Soares, mas acho que o debate em sala enriquecerá minhas reflexões. Vai uma charge em homenagem as políticas de inclusão digital que ainda serão debatidas.

2 comentários:

  1. Eu achei bacana sua postagem, Sigmar.
    Ainda que não tenha lido exatamente o texto que você comenta.
    Não posso negar que o que mais gostei foi a charge!
    #Marcante! Faz a gente "rir pra não chorar" com estas políticas "nas nuvens"...

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  2. Daniel,
    a criatividade da charge é bem significativa, remete as discussões sobre inclusão digital que fizemos nas aulas.

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