domingo, 1 de abril de 2012

Santaella e o pós-humano

De antemão a expressão pós-humano, usada no título do artigo e do livro “Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura” (SP: Paulus, 2003) me causou um certo desconforto por remeter a imagem do cyborg ou do andróide presente em algumas películas (O Exterminador do Futuro, Blade Runner) e a uma perspectiva de sujeição da história a um presentismo tecnológico, algo desesperador e incômodo para uma historiadora. Comecei a leitura com um pé atrás, tenho que confessar. No último parágrafo, entretanto, a autora apresenta sua justificativa para a escolha do termo: a aproximação dela com o campo das artes levou a optar pelo termo que já é usado desde a década de 90 por artistas e teóricos da arte, ademais “ a expressão [pós-humano] tem sido usada para sinalizar as grandes transformações que as novas tecnologias da comunicação estão trazendo para tudo o que diz respeito à vida humana, tanto no nível psíquico quanto social e antropológico” (p. 31). Mas não precisei chegar ao final do texto para perceber que o viés apocalíptico não fazia parte das argumentações da autora e muitas análises foram mais moderadas.

Ao contrário do extremismo que marca algumas análises sobre a cultura digital e as implicações das TIC na organização social, Santaella faz a defesa da necessidade de análises e estudos que busquem compreender a complexidade da chamada cultura do virtual ou cibercultura, salienta que devemos rever categorias e conceitos visando uma compreensão menos superficial desse contexto . Nesse propósito, traz a organização do desenvolvimento (ñ sei se é a melhor palavra) cultural em seis eras ou seis formações culturais, que a autora pondera não são etapas lineares pois “[...]há sempre um processo cumulativo de complexificação[...]”. Essa proposição traz a idéia de transformações processuais em que um aperfeiçoamento tecnológico é fruto de acumulações de conhecimentos e aprimoramento de invenções/intervenções. Lembrei-me dos tempos da Escola Técnica, parecia que o transistor era a grande invenção e que tudo seguinte era resultado, na verdade, de um processo de minituarização: um C.I continha vários transistores, depois o processador (o 8086) continha vários C.I., nossa sou da época do XT, estudei linguagem Assembler, que hoje parece a pré- história dos computadores. Mas para quem acompanhou esse desenvolvimento mais de perto, parece menos impactante, menos assustador. As empresas de telecomunicações começavam a fazer investimentos em fibra ótica na estrutura da transmissão de dados, e sem essa infraestrutura pouco avanço seria possível para a configuração posterior da internet. Mas a internet parece que acelerou esses processos. Fecha parêntese!

Retomando as eras de Santaella, ela define seis tipos de formações: a cultura oral, a cultura escrita, a cultura impressa, a cultura de massas, a cultura das mídias e a cultura digital. A cultura das mídias caracterizada pelo consumo individualizado da informação e a mistura entre linguagens e meios; situa na década de 80 quando os equipamentos e dispositivos permitiam uma cultura do disponível e do transitório. A cultura digital, ou cultura do virtual ou cibercultura caracteriza-se pela convergência das mídias e “[...] pela exacerbação que a produção e circulação da informação atingiu nos nossos dias[...]”. Ela critica a idéia de que as transformações culturais são determinadas apenas pelas tecnologias e meios de comunicação, mas que é necessário entender as transformações nas linguagens e pensamentos que condicionam as formações culturais.

Outro ponto que quero destacar é a pertinência de se pensar a cultura digital vinculada ao capitalismo global e os desdobramentos dessa relação. Santaella afirma que os investimentos do capital de sido significativo nas TIC o que resulta também em sua disseminação. Nesse âmbito nunca é demais lembrar que o desenvolvimento e a produção de equipamentos computacionais, especialmente nessa configuração econômica globalizada, está pautada na diminuição de custos de produção via a super-exploração da mão-de-obra nos países que produzem o hardware, os chamados Tigres Asiáticos. Um artigo publicado no site Pijama Surf denunciava-se a exploração da mão-de-obra infantil nas fábricas de iPhone, iPad etc instaladas na cidade de Shenzhen, na China, como aquelas crianças e adolescentes de 13 a 16 anos, que recebiam 70 centavos por 16 h diárias de trabalho,estavam excluídos da possibilidade de aquisição desses produtos e como isso era contraditório com todo o marketing que envolvia/envolve o lançamento de cada produto da Apple. Claro que essas questões não se resumem a uma discussão tecnológica, mas as opções sociais e políticas que resultam nesse estágio ou fase de nosso processo civilizatório.

Bem, as leituras propostas (ainda não dei conta de todas L) e essas postagens têm permitido sistematizar e aprofundar muitas reflexões. Talvez não tenha se configurado como um canal de comunicação, isso é perceptível pelos acessos, comentários e outras interações (ou melhor, pela falta delas). Mas tem sido um divã, onde me deito e dou asas ao pensamento, nas minhas tardes/noites de domingo (aliás, ô dia que a internet é lenta!!!).

2 comentários:

  1. oi Sigmar,
    o objetivo das postagens é justamente sistematizar e aprofundar as reflexões, bem como proporcionar a troca, a partilha do conhecimento. Entretanto, apesar de estarem todos conectados, participando de redes sociais, esta troca e partilha do conhecimento tem ficado a desejar. Parece que a velha concepção acadêmica de produção individual do conhecimento ainda prepondera. Mas continuamos na luta, tentando introduzir essa perspectiva na academia.
    Vamos em frente!!!
    abraços

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  2. comecei a ler 'a gramática do tempo' do boaventura de sousa santos e desde então uma pergunda martela em minha cabeça: quantas ausências e emergências cabem em um texto?
    acho bastante válida a reflexão de que vc se vale: é preciso mesmo sempre chamar os autores para um debate franco, essa história de ler e aceitar só mantém o velho e muito batido discurso de apelo à autoridade, que não cria, não avança, não re-faz.

    parabéns pelo debate, gostaria de tê-lo lido antes.



    [minhas noites (pós trabalho) e meus domingos também têm sido de mergulho profundo! vamos que vamos nesse oceano de expectativas que essa vida acadêmica de estudos nos oferece]

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