quinta-feira, 24 de maio de 2012

Do que se fala quando o assunto é inclusão digital: aproximações


O tema inclusão digital, numa sociedade marcada pela institucionalização da exclusão, cujo o principal alicerce talvez seja o direito a propriedade privada, como nos diria Rousseau, ainda no século XVIII, (Discurso sobre as Origens da desigualdade entre os homens), tem um apelo de justiça social contido no termo inclusão. Nessa primeira acepção, “o Digital” é apenas um complemento que poderia ser substituído por outros termos representantes de demandas igualmente legitimas: inclusão educacional, inclusão financeira, inclusão cultural, inclusão no mercado de trabalho ou, mais abrangentemente, inclusão social. No entanto, a presença maciça das TIC digitais nas mais variadas atividades sociais, coloca a inclusão digital em primeiro plano. 



Vamos começar analisando os sentidos da categoria inclusão social. O termo complementar, exclusão, também aparece em diferentes discursos, relacionando-se com aspectos sociais específicos, processos que abarcam desde a degradação das relações sociais às desigualdades múltiplas postas em ação pela forma violenta da acumulação capitalista em nosso país” e até mesmo pessoas 'os excluídos' (Ferreira, 2006, p. 02) . Mônica Ferreira questiona a “migração de idéias” ou apropriação de conceitos que está por trás da banalização de muitos conceitos, retirados de seu contexto de produção e isolado das referências teóricas com que dialogava. Assim é que diversos conceitos são utilizados para justificar o injustificável no neoliberalismo e para estabelecer “os limites do pensável e[...] circunscrever o contestável” (p. 06). No plano das políticas públicas, a autora aponta que a exclusão aparce como “resíduo necessário” das incontestáveis leis de mercado e do modelo de globalização implantado, que pode ser amenizada através de soluções técnicas e competência administrativa e não por políticas. Resgata autores como Martins (1997) para quem o que se chama de exclusão é na verdade os problemas resultantes da reconfiguração da sociedade no capitalismo atual, a inclusão subordinada, ou seja, o capitalismo dessenraiza e exclui para depois incluir segundo sua lógica: “[...]exclusão , passa pela redefinição de posições e localizações das pessoas no mundo do trabalho particularmente, e na vida social em geral”.(p. 07). Para o autor, apesar da exclusão e inclusão fazerem parte da estrutura capitalista, a exclusão tem se tornado tão evidente pelas formas precarizadas e pelo distanciamento entre esse dois processos. Outro autor citado é Oliveira que afirma ser a exclusão a marca do capitalismo na América Latina, onde se implanta o modelo de capitalismo neoliberal numa estrutura política-econômica arcaica, o que chamei de modernização conservadora (termo tb utilizado por Cysneiro), e que denomina de o atraso da vanguarda e a vanguarda do atraso. Para esse autor a exclusão refere-se ao descarte de parte da população nos paises latino americanos para se subordinar aos capitalismo global.


Bem chegamos na inclusão digital: seria um recorte da questão mais ampla da inclusão social? Bonilla e Oliveira (2011) situam o início do debate sobre inclusão digital no contexto de implantação dos programas Sociedade da Informação em diversos países, mas principalmente nos países europeus e nos EUA na década de 90. A desigualdade do acesso às TIC têm servido de base para políticas de inclusão digital de diferentes alcance e princípios (universalização ou democratização do acesso? ) e fomentado o debate acadêmico acerca das significações da inclusão/exclusão digital (Possibilita a inserção na cibercultura?). Como pensar a inclusão digital numa sociedade que tem uma lógica excludente, ou melhor, de níveis de inclusão diferenciados? A ampliação e aprofundamento dessa questão levaria ao questionamento sobre as bases do modelo de sociedade hegemônico e a perspectiva de transformação do mesmo, uma dimensão que as políticas compensatórias não buscam pois sua função é a manutenção desse modelo “A luta pela inclusão é também uma luta paran manter a sociedade que produz a exclusão” (MARLENE RIBEIRO, 1999 apud Bonilla e Oliveira, 2011). Inclusão tb não significa apenas tornar os sujeitos consumidores de informação, de objetos, de cultura, mas possibilitar a participação ativa na sociedade como sujeitos produtores de cultura. Os argumentos apresentados pelos autores apontam que a criação de infraestrutura de acesso às redes digitais para toda sociedade é apenas um aspecto da construtução da nova cidadania, a possibilidade de inserção ativa, autoral na nova esfera pública é um aspecto essencial da emancipação dos sujeitos.

André Lemos, numa artigo publicado no Correio Brasiliense, em 2003, trazia a importância que o tema adquiria, especialmente em países como o Brasil, marcado pela exclusão damaioria da população dos bens básicos e dos direitos legais, e os limites da discussão até aquele período. Segundo o autor, os dogmas da inclusão digital estavam ligados a uma visão limitadora e tecnocrática: a sociedade deve ser incluída na sociedade da informação, ponto final; deve-se criar condições de infraestrutura para o acesso aos serviços digitais; a principal estratégia é a instalação de telecentros. Estudioso da cibercultura, Lemos questiona esses dogmas e os objetivos que permeiam essas premissas “incluir para que e para quem?” Nessa perspectiva, incluir é adaptar ao status quo; tendo a concordar com o autor. Os telecentros são estratégias que seguem essa perspectivas (talvez por isso as pessoas prefiram o acesso privado ao acesso gratuito nestes locais). Por fim, define inclusão: “Incluir é ter capacidade livre de apropriação dos meios, que não é só técnica, mas sociocognitiva ”. Essa análise de Lemos nos faz pensar que a tão propalada inclusão social pode significar apenas adaptar a um modelo social vigente decadente, em crise.

São muitas questões, todas profundas e interrelacionadas, para compreensão do problema em sua complexidade e não a partir dos dogmas que muitas vezes limitam a análise da inclusão digital.

2 comentários:

  1. Sigmar: belo texto, como de praxe!
    Fico pensando como as coisas sempre acontecem pelo viés do capitalismo e como a educação se torne fundante nesse contexto... Uma pena que, as próprias ações que se dizem fortalecer os processos de inclusão digital, advindas do governo, se configuram com uma visão meramente tecnicista, como se "dar a var" fosse suficiente para o indivíduo pescar...

    Vamos conversando...
    Abraços.

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  2. pois é handherson,
    muitas vezes nos vemos num nó difícil de dasatar, só mesmo acreditando na educação como possibilidade.
    Abraços

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