O tema inclusão digital, numa
sociedade marcada pela institucionalização da exclusão, cujo o
principal alicerce talvez seja o direito a propriedade privada, como
nos diria Rousseau, ainda no século XVIII, (Discurso sobre as
Origens da desigualdade entre os homens), tem um apelo
de justiça social contido no termo inclusão. Nessa primeira
acepção, “o Digital” é apenas um complemento que poderia ser
substituído por outros termos representantes de demandas igualmente
legitimas: inclusão educacional, inclusão financeira, inclusão
cultural, inclusão no mercado de trabalho ou, mais abrangentemente,
inclusão social. No entanto, a presença maciça das TIC digitais
nas mais variadas atividades sociais, coloca a inclusão digital em
primeiro plano.
Vamos começar analisando os sentidos
da categoria inclusão social. O termo complementar, exclusão,
também aparece em diferentes discursos, relacionando-se com aspectos
sociais específicos, “processos que
abarcam desde a degradação das relações sociais às desigualdades
múltiplas postas em ação pela forma violenta da acumulação
capitalista em nosso país” e até mesmo
pessoas 'os excluídos' (Ferreira, 2006, p.
02) .
Mônica Ferreira questiona a “migração de idéias” ou
apropriação de conceitos que está por trás da banalização de
muitos conceitos, retirados de seu contexto de produção e isolado
das referências teóricas com que dialogava. Assim é que diversos
conceitos são utilizados para justificar o injustificável no
neoliberalismo e para estabelecer “os
limites do pensável e[...] circunscrever o contestável”
(p. 06). No plano das políticas públicas, a autora aponta que a
exclusão aparce como “resíduo necessário” das incontestáveis
leis de mercado e do modelo de globalização implantado, que pode
ser amenizada através de soluções técnicas e competência
administrativa e não por políticas. Resgata autores como Martins
(1997) para quem o que se chama de exclusão é na verdade os
problemas resultantes da reconfiguração da sociedade no capitalismo
atual, a
inclusão subordinada,
ou seja, o capitalismo dessenraiza e exclui para depois incluir
segundo sua lógica: “[...]exclusão
, passa pela redefinição de posições e localizações das pessoas
no mundo do trabalho particularmente, e na vida social em geral”.(p.
07). Para
o autor, apesar da exclusão e inclusão fazerem parte da estrutura
capitalista, a exclusão tem se tornado tão evidente pelas formas
precarizadas e pelo distanciamento entre esse dois processos. Outro
autor citado é Oliveira que afirma ser a exclusão
a marca do capitalismo na América Latina, onde se implanta o modelo
de capitalismo neoliberal numa estrutura política-econômica
arcaica, o que chamei de modernização conservadora (termo tb
utilizado por Cysneiro), e que denomina de o atraso da vanguarda e a
vanguarda do atraso. Para esse autor a exclusão refere-se ao
descarte
de parte da população nos paises latino americanos para se
subordinar aos capitalismo global.
Bem
chegamos na inclusão digital: seria um recorte da questão mais
ampla da inclusão social? Bonilla e Oliveira (2011) situam
o início do debate sobre inclusão digital no contexto de
implantação dos programas Sociedade da Informação em diversos
países, mas principalmente nos países europeus e nos EUA na década
de 90. A desigualdade do acesso às TIC têm servido de base para
políticas de inclusão digital de diferentes alcance e princípios
(universalização ou democratização do acesso? ) e fomentado o
debate acadêmico acerca das significações da inclusão/exclusão
digital (Possibilita a inserção na cibercultura?). Como pensar a
inclusão digital numa sociedade que tem uma lógica excludente, ou
melhor, de níveis de inclusão diferenciados? A ampliação e
aprofundamento dessa questão levaria ao questionamento sobre as
bases do modelo de sociedade hegemônico e a perspectiva de
transformação do mesmo, uma dimensão que as políticas
compensatórias não buscam pois sua função é a manutenção desse
modelo “A luta pela inclusão
é também uma luta paran manter a sociedade que produz a exclusão”
(MARLENE RIBEIRO, 1999 apud Bonilla e Oliveira, 2011).
Inclusão tb não significa apenas tornar os sujeitos consumidores de
informação, de objetos, de cultura, mas possibilitar a participação
ativa na sociedade como sujeitos produtores de cultura. Os argumentos
apresentados pelos autores apontam que a criação de infraestrutura
de acesso às redes digitais para toda sociedade é apenas um aspecto
da construtução da nova cidadania, a possibilidade de inserção
ativa, autoral na nova esfera pública é um aspecto essencial da
emancipação dos sujeitos.
André Lemos, numa artigo publicado no
Correio Brasiliense, em 2003, trazia a importância que o tema
adquiria, especialmente em países como o Brasil, marcado pela
exclusão damaioria da população dos bens básicos e dos direitos
legais, e os limites da discussão até aquele período. Segundo o
autor, os dogmas da inclusão digital estavam ligados a uma visão
limitadora e tecnocrática: a sociedade deve ser incluída na
sociedade da informação, ponto final; deve-se criar condições de
infraestrutura para o acesso aos serviços digitais; a principal
estratégia é a instalação de telecentros. Estudioso da
cibercultura, Lemos questiona esses dogmas e os objetivos que
permeiam essas premissas “incluir para que e para quem?”
Nessa perspectiva, incluir é
adaptar ao status quo; tendo a concordar com o autor. Os telecentros
são estratégias que seguem essa perspectivas (talvez por isso as
pessoas prefiram o acesso privado ao acesso gratuito nestes locais).
Por fim, define inclusão: “Incluir é ter capacidade
livre de apropriação dos meios, que não é só técnica, mas
sociocognitiva ”. Essa análise
de Lemos nos faz pensar que a tão propalada inclusão social pode
significar apenas adaptar a um modelo social vigente decadente, em
crise.
São muitas questões, todas profundas e interrelacionadas, para
compreensão do problema em sua complexidade e não a partir dos
dogmas que muitas vezes limitam a análise da inclusão digital.

Sigmar: belo texto, como de praxe!
ResponderExcluirFico pensando como as coisas sempre acontecem pelo viés do capitalismo e como a educação se torne fundante nesse contexto... Uma pena que, as próprias ações que se dizem fortalecer os processos de inclusão digital, advindas do governo, se configuram com uma visão meramente tecnicista, como se "dar a var" fosse suficiente para o indivíduo pescar...
Vamos conversando...
Abraços.
pois é handherson,
ResponderExcluirmuitas vezes nos vemos num nó difícil de dasatar, só mesmo acreditando na educação como possibilidade.
Abraços