domingo, 7 de outubro de 2012

Software Livre: questão política ou técnica?


Conheço pouco sobre o tema, apesar de defender diante dos professores que era a uma boa opção no caso do Proinfo. O  meu principal argumento era o valor gasto com licenças Windows poderia ser investido em outras áreas ou projetos. Para aproximar do tema, foi fundamental o livro de Sergio Amadeu “Software Livre: a luta pela liberdade de conhecimento” (2004). Apesar de não ser uma obra recente e, também por isso, traz noções básicas do tema. Na leitura foi esclarecido que o Software Livre (SL) tem mais relação com a liberdade de expressão do que com os custos para uso, “software livre não significa software não-comercial” (p.14).
 O autor milita em favor do software livre que define como “Socialmente justo, economicamente viável e tecnologicamente sustentável”. O autor situa a partir de 1980 a difusão do movimento software livre que defende o compartilhamento livre ou auto-organizado do conhecimento tecnológico; tem como principais defensores os hackres*; o ciberespaço é o principal espaço de compartilhamento e difusão desse movimento. O movimento encontra a oposição das grandes empresas de software que lucram com os licenciamentos de programas e sistemas e os políticos financiados por essas empresas. 

* Primeira lição: hacker é diferente de cracker, estes últimos utilizam os conhecimentos de informática para violar sistemas e cometer crimes eletrônicos.

A digitalização traz a característica da reprodutividade técnica da informação sem a perda da qualidade original, o que permite o compartilhamento de softwares, programas, sistemas (são sinônimos?) sem que o envio dessas informações resulte em perdas para o criador ou disseminador; o conteúdo também não perde a qualidade. Então a resistência ao software livre tem fundo político-econômico e não técnico.

*Segunda lição: as quatro liberdades dos Softwares Livre são de uso, cópia, modificações e redistribuição. É pirataria isso? Não dentro da concepção de SL em que o respeito a autoria não corresponde a propriedade privada intelectual (software proprietário); no SL existem autores e não donos. A General Public Licence (GLP) – Licença Pública Geral -  é um tipo de licença que garante os 04 princípios do SL citados, sendo que o copyleft impede que os softwares derivados se tornem softwares proprietários

O SL tem como característica básica para permitir os pilares da liberdade descrita acima ter o código-fonte aberto (Open source). Entretanto há diferença entre software gratuito (que pode ser proprietário, ex. Adobe Reader), software aberto (que não permite as 4 liberdades) e software livre (open source e livre, ex. GNU Linux).
O histórico do movimento SL é bem interessante, desde a iniciativa de Stallman do MIT  com o projeto GNU, a criação do Linux por  Torvalds e a filosofia BSD (Berkerley Software Distribuition) que mantém os princípios do SL. A adesão de desenvolvedores em todo mundo aos projetos de SL é impressionante (100 mil em torno do OpenOffice.org)
Os estudos de Alan Story, de 2001, mostrou que os principais beneficiários das atuais leis de direitos autorais são os países ricos, a ex. do EUA que faturaram US$ 36,5 bilhões em royalties e licenças de propriedade intelectual em 1999; só o Brasil pagou US$ 1 bilhão....as cifras são impressionantes!!!! “Como a tendência da economia capitalista é se tornar crescentemente baseada em informações e em bens intangíveis, a disputa pelo conhecimento das técnicas e tecnologias de armazenamento, processamento e transmissão das informações assume o centro estratégico das economias nacionais.” (p. 06).

*Terceira lição: quando se compra um software proprietário (tipo os da Microsoft), apenas adquirimos a licença de uso e não o produto.

De um ponto de vista mais geral, os softwares são considerados bens inatingíveis, não-rivais, ou seja, o seu uso não exclui o uso por outras pessoas simultaneamente “O produto físico é presente e as idéias são onipresentes” (p. 27). Isso se contrapõe a nossa concepção burguesa de uso privado e individual dos bens sociais. Nossa mentalidade privatista e individualista impede que consolidemos, por ex., a carona solidária entre vizinhos, colegas de trabalho ou escola/faculdade e a cidade se entope de carros em detrimento do transporte coletivo.

Discordo do autor ao afirmar que o desenvolvimento da ciência só foi possível graças a liberdade de transmissão e ao compartilhamento do conhecimento, pois carrega o pressuposto da liberdade plena da ciência. Sabemos que o conhecimento científico tem uma liberdade condicionada, por paradigmas hegemônicos, por ideologias de agências de financiamento, cuja autonomia científica depende da correlação de forças entre a comunidade científica e as estruturas de poder. (foi só um parêntese). Mais interessante é a discussão sobre o valor das ideias e as implicações da propriedade intelectual sobre esse bem social, assim como os interesses envolvidos nas leis de patente na Europa e EUA (cap. 4). As informações desmentem a falácia de que há grandes investimentos das corporações na invenção e desenvolvimento dos softwares e sistemas, o que justificaria as restrições do uso de suas aplicações e a cobrança de direitos autorais.

Experiências com o SL como base tecnológica se espalham pelo Brasil e pelo mundo. O caso de Extremadura, província de uma região pobre na Espanha, foi emblemático na decisão por autonomia do software como estratégia para o desenvolvimento local, a partir de fins de 90. No Brasil, a adoção do SL pelo governo se deu a partir de 2003, em torno de cinco argumentos:
1) argumento macroeconômico,
2) argumento de segurança,
3) argumento da autonomia tecnológica,
4) argumento da independência de fornecedores,
5) argumento democrático.

Chama a atenção os gastos com licença de uso de software proprietário para informatização de 100 mil escolas públicas: cerca de US$ 300 milhões a cada 2 anos. Nesse aspecto, meu argumento inicial não é de todo secundário, em vista da necessidade de investimento na infraestrutura de conexão banda larga e manutenção periódica dos equipamentos. A segurança dos dados e informações e a perspectiva de independência tecnológica são argumentos em favor do SL.

“O software livre reforça a ideia e a constituição de padrões públicos”.(p. 8). Será possível que essa mentalidade se consolide sem mudar a concepção de propriedade privada que está na base da sociedade capitalista, com a estrutura política e jurídica entrincheirada na sua defesa? Só a mobilização social para dizer mas, de antemão, muitos princípios naturalizados no modelo de sociedade capitalista, como o direito privado aos bens culturais, podem ser colocados em xeque, especialmente através de movimento que não tem líder (que poderia ser cooptado facilmente) , mas um princípio de liberdade que se dissemina.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Letramentos: vivências plurais


Magda Soares é uma importante referência para mim quando se fala em Letramento. Tive contato com a autora pesquisando materiais sobre o tema para as formações no NTE. Em um dos textos dela que discutimos (Novas Práticas de Leitura e Escrita: Letramento na Cibercultura, 2002) há a problematização das diferentes perspectivas de letramento, por isso o uso do plural, revelando “a diversidade de ênfases na caracterização do fenômeno” (p. 144). Atualmente, vemos com frequência no vocabulário pedagógico o conceito de letramento como uma ação mais ampla e complexa de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita que o conceito de alfabetização não contemplava. Esse último agora entendido como um dos requisitos para se chegar à competência mais sofisticada de estar letrado. No entanto, penso que nos escritos de Paulo Freire, especialmente as obras voltadas para Educação de Adultos, o próprio conceito de alfabetização proposto já rompia com uma perspectiva instrumental de aprendizado da base alfabética, englobava a discussão do contexto social, a valorização dos adultos como sujeitos de linguagem e de sua história, os mecanismos de exploração do sistema capitalista, conjugava a leitura do mundo e a leitura da palavra visando à conscientização dos sujeitos. Ainda no mesmo texto citado, Magda Soares traz as concepções de Tfouni e Kleiman, autoras que se referem ao letramento como práticas sociais de leitura e escrita, o que englobaria também os impactos da escrita para os contextos sócios históricos para Tfouni, o que o conceito de alfabetização não abrange, mas aponta para outra definição: o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita (p. 145).


A discussão acerca da alfabetização e de práticas mais sofisticadas de escrita e leitura (letramento) começa a tomar corpo em vários países em meados da década de 80. No Brasil, os dois conceitos aparecem imbricados, ao contrário de países como EUA e França onde as discussões são conduzidas separadamente, pelo fato de toda população ter passado pela educação básica e, assim, domina a escrita. Entre nós, Soares (Letramento e alfabetização: as muitas facetas, 2004) indica que o conceito de alfabetizado vem se transformando no sentido da aproximação com o conceito de letramento (competência no uso da leitura e escrita). A autora traz o argumento interessante sobre o fracasso da aprendizagem da língua escrita que são mostrados nos resultados de diversas avaliações externas (SAEB, ENEM, PISA, Prova Brasil e outros): a perda da especificidade e importância da alfabetização nos processos educacionais de aquisição de escrita que aparece diluída entre as diversas atividades em relação às demais aprendizagens e comportamentos na área da leitura e da escrita” (p. 9). Soares também apresenta entre as causas dessa situação de fracasso na alfabetização, ou melhor, da ‘desinvenção da alfabetização’, fatores pedagógicos que vejo serem repetidos pelos professores que atuam nas séries iniciais sem muito eco nos sistemas educacionais: a organização das séries em ciclos e a progressão continuada. Essa fala me surpreendeu! Vinda dos professores é sempre desvalorizada pelos sistemas educacionais que consideram suas bases pedagógicas sempre as mais avançadas. A autora também coloca as mudanças de paradigma em relação ao conceito de alfabetização no Brasil e em outros países, também como fator de diluição do seu significado: um paradigma behaviorista, dominante nos anos de 1960 e 1970, é substituído, nos anos de 1980, por um paradigma cognitivista, que avança, nos anos de 1990, para um paradigma sociocultural” (p. 10). Aqui o paradigma construtivista torna-se hegemônico na alfabetização escolar sob influência dos estudos de Emilia Ferreiro e a psicogênese da escrita. A dogmatização desse paradigma trouxe alguns equívocos sinalizados por Soares: 1. a ênfase na dimensão psicológica da alfabetização negligenciou os aspectos linguísticos da aquisição da leitura/escrita (onde o sistema alfabético e ortográfico é também composto por relações convencionais e arbitrárias,ex. fonema-grafema); 2. O pressuposto de que o paradigma construtivista excluía qualquer método de alfabetização (a teoria sem o método), agora considerados métodos tradicionais por analogia aos métodos até então prevalecentes (fonético, silábico, etc); 3. O falso pressuposto que apenas com o convívio intensivo com materiais escritos a criança se alfabetiza.

 Ao ler o texto muitas questões sobre alfabetização e letramento foram esclarecidas. Não fui alfabetizada na escola, mas em casa por minha mãe que não teve oportunidade de concluir nem o ensino fundamental e me alfabetizava naquela cartilha do “U de uva, I de Ivo...”. Indiretamente também por meu pai que sempre gostou de ler jornais e revistas e lembro, ainda criança, de ficar por perto, olhando o jornal...um dia peguei o jornal e comecei a ler para eles. Quando fui para escola já sabia ler, escrever e somar/subtrair, mas fui matriculada numa turma de alfabetização. Já trabalhando com formação de professores, me perguntava: por que os Pedagogos com tanta bagagem e anos de estudo não conseguiam alfabetizar as crianças? Não entendia. Alguns colegas diziam que eles não eram formados para isso, não era objetivo do curso, que isso era obrigação das normalistas ‘professoras do Magistério’. Comecei a enxergar o problema de outro ângulo agora com essa leitura. Numa palestra de Saviani, durante o seminário Gramsci no Limiar do Século XXI: Pessimismo no Pensamento, Otimismo na Ação, na UNEB, em 2010, ele salientava que o processo de alfabetização tinha que ser um processo sistemático, constante, às vezes repetitivo e que envolvia a aprendizagem de convenções linguísticas, até chegar o ponto irreversível da alfabetização, o que em cada pessoa tem um tempo, o que não era viabilizado nesses programas aligeirados de alfabetização em massa (TOPA e outros derivados). Concordo com ele.

A escrita digital traz outros desafios para pensar a nossa relação com a cultura escrita. Os modos de comunicação na rede digital traz a configuração de uma escrita híbrida, segundo Denise Bertoli Braga, onde marcas da oralidade, escrita e imagem se misturam para compor os discursos que, muitas vezes, só tem significado na comunicação na Internet. Para os radicais, a autora salienta que as outras linguagens também passaram por diversas transformações na sua constituição em função dos contextos sociais de uso ao longo do tempo; as linguagens são históricas, por isso são dinâmicas e complexas. Como na cultura escrita, em que  mesmo as pessoas consideradas iletradas ou as analfabetas interagem com os elementos dessa cultura, também na cultura digital 'os analfabetos digitais' interagem com os elementos da cultura digital, mesmo que seja com a ajuda de outros mais capazes (na maioria dos casos os mais jovens) na perspectiva vygotskyana e vão desenvolvendo sua ZDP através de estratégias para lidar com os desafios dessa sociedade.
Não avancei muito nas leituras propostas, me detive em Magda Soares, mas acho que o debate em sala enriquecerá minhas reflexões. Vai uma charge em homenagem as políticas de inclusão digital que ainda serão debatidas.

sábado, 22 de setembro de 2012

Inclusão Digital: outras reflexões


Ao ler alguns dados sobre acesso às TIC e, especialmente a Internet, destaca-se o pouco acesso através de espaços públicos em contrapartida ao maior acesso através de pontos privados, coletivos ou não. Isso ‘de cara’ já sinaliza a inoperância das políticas públicas de inclusão digital (como já discuti sobre esse termo na postagem anterior, não vou polemizá-lo aqui, mas sinalizo sua incompletude e pouca adequação). Paralelamente, é interessante perceber o avanço das lan houses, especialmente nos bairros populares (mesmo nos mais distantes e isolados, sempre há uma lan house, um mercadinho e uma igreja evangélica; um trinômio bem significativo se pensarmos no poder da tecnologia, do mercado e da ideologia, não necessariamente enquanto instâncias separadas). Nesses espaços de uso coletivo da internet (as lan houses) acredito que há um universo de usos e sentidos para as TIC e de variadas formas de inserção dessas pessoas na rede: a garotada que vai jogar em rede (já ouvi dizer que fazem vaquinha para pagar o acesso e compartilham o tempo); já vi pessoas que não sabem usar o computador e contam com a boa vontade dos atendentes para acessar 2ª via de contas, documentos e outros serviços...são tantas situações, mas vejo pouca análise científica sobre o tema, apenas dados.

No Mapa da Inclusão Digital da FGV apresenta que no ranking mundial de acesso a internet o Brasil está em 63º lugar entre 154 países pesquisados, o que segundo a pesquisa não é um resultado tão negativo. Os dados apresentam desigualdade de acesso entre os homens e mulheres, entre a zona urbana e a rural, entre as regiões sul / sudeste e norte/nordeste, ou seja, muitas das desigualdades consolidadas historicamente, são reproduzidas quando o dado em análise é a inclusão digital. E quais as perspectivas de mudança desse cenário? A pesquisa deixou subtendido que isso depende da melhoria das condições de vida da população, porém penso que essa melhoria tem sido tão limitada, que a mudança social deve ser mesmo estrutural.

Sobre as políticas públicas de inclusão digital, essas discussões começam a ganhar visibilidade, no Brasil, a partir dos debates em torno do programa Sociedade da Informação, mas as preocupações mercadológicas prevalecem (BONILLA, 2010). Aponta para os limites dessas políticas no âmbito educacional através de programas como o Proinfo, Proinfo rural e Programa Banda Larga na Escola: a velocidade de conexão, a internet que não chega na zona rural, o lobby das empresas de telefonia que resulta em conexões caras e lentas. Os pormenores do problema, relatados cotidianamente pelos professores, acrescentam a falta de condições de funcionamento dos laboratórios,  a falta de manutenção dos equipamentos após a perda da garantia, o número reduzido de computadores para o quantitativo de estudantes, a não liberação das secretarias para a formação em serviço e tantos outros. Vejo as iniciativas mais interessantes serem desenvolvidas a partir do engajamento dos sujeitos atuantes na concretização das políticas do que resultante de uma política pública bem estruturada.

Como um dos dados da pesquisa da FGV demonstra o acesso decrescente em relação a idade, ou seja, quanto mais velhos maior o nível de "exclusão digital", será que buscamos mesmo a universalização do acesso ou apenas para aqueles que são foco do mercado de trabalho? Deixo a reflexão a partir da charge:


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Do que se fala quando o assunto é inclusão digital: aproximações


O tema inclusão digital, numa sociedade marcada pela institucionalização da exclusão, cujo o principal alicerce talvez seja o direito a propriedade privada, como nos diria Rousseau, ainda no século XVIII, (Discurso sobre as Origens da desigualdade entre os homens), tem um apelo de justiça social contido no termo inclusão. Nessa primeira acepção, “o Digital” é apenas um complemento que poderia ser substituído por outros termos representantes de demandas igualmente legitimas: inclusão educacional, inclusão financeira, inclusão cultural, inclusão no mercado de trabalho ou, mais abrangentemente, inclusão social. No entanto, a presença maciça das TIC digitais nas mais variadas atividades sociais, coloca a inclusão digital em primeiro plano. 



Vamos começar analisando os sentidos da categoria inclusão social. O termo complementar, exclusão, também aparece em diferentes discursos, relacionando-se com aspectos sociais específicos, processos que abarcam desde a degradação das relações sociais às desigualdades múltiplas postas em ação pela forma violenta da acumulação capitalista em nosso país” e até mesmo pessoas 'os excluídos' (Ferreira, 2006, p. 02) . Mônica Ferreira questiona a “migração de idéias” ou apropriação de conceitos que está por trás da banalização de muitos conceitos, retirados de seu contexto de produção e isolado das referências teóricas com que dialogava. Assim é que diversos conceitos são utilizados para justificar o injustificável no neoliberalismo e para estabelecer “os limites do pensável e[...] circunscrever o contestável” (p. 06). No plano das políticas públicas, a autora aponta que a exclusão aparce como “resíduo necessário” das incontestáveis leis de mercado e do modelo de globalização implantado, que pode ser amenizada através de soluções técnicas e competência administrativa e não por políticas. Resgata autores como Martins (1997) para quem o que se chama de exclusão é na verdade os problemas resultantes da reconfiguração da sociedade no capitalismo atual, a inclusão subordinada, ou seja, o capitalismo dessenraiza e exclui para depois incluir segundo sua lógica: “[...]exclusão , passa pela redefinição de posições e localizações das pessoas no mundo do trabalho particularmente, e na vida social em geral”.(p. 07). Para o autor, apesar da exclusão e inclusão fazerem parte da estrutura capitalista, a exclusão tem se tornado tão evidente pelas formas precarizadas e pelo distanciamento entre esse dois processos. Outro autor citado é Oliveira que afirma ser a exclusão a marca do capitalismo na América Latina, onde se implanta o modelo de capitalismo neoliberal numa estrutura política-econômica arcaica, o que chamei de modernização conservadora (termo tb utilizado por Cysneiro), e que denomina de o atraso da vanguarda e a vanguarda do atraso. Para esse autor a exclusão refere-se ao descarte de parte da população nos paises latino americanos para se subordinar aos capitalismo global.


Bem chegamos na inclusão digital: seria um recorte da questão mais ampla da inclusão social? Bonilla e Oliveira (2011) situam o início do debate sobre inclusão digital no contexto de implantação dos programas Sociedade da Informação em diversos países, mas principalmente nos países europeus e nos EUA na década de 90. A desigualdade do acesso às TIC têm servido de base para políticas de inclusão digital de diferentes alcance e princípios (universalização ou democratização do acesso? ) e fomentado o debate acadêmico acerca das significações da inclusão/exclusão digital (Possibilita a inserção na cibercultura?). Como pensar a inclusão digital numa sociedade que tem uma lógica excludente, ou melhor, de níveis de inclusão diferenciados? A ampliação e aprofundamento dessa questão levaria ao questionamento sobre as bases do modelo de sociedade hegemônico e a perspectiva de transformação do mesmo, uma dimensão que as políticas compensatórias não buscam pois sua função é a manutenção desse modelo “A luta pela inclusão é também uma luta paran manter a sociedade que produz a exclusão” (MARLENE RIBEIRO, 1999 apud Bonilla e Oliveira, 2011). Inclusão tb não significa apenas tornar os sujeitos consumidores de informação, de objetos, de cultura, mas possibilitar a participação ativa na sociedade como sujeitos produtores de cultura. Os argumentos apresentados pelos autores apontam que a criação de infraestrutura de acesso às redes digitais para toda sociedade é apenas um aspecto da construtução da nova cidadania, a possibilidade de inserção ativa, autoral na nova esfera pública é um aspecto essencial da emancipação dos sujeitos.

André Lemos, numa artigo publicado no Correio Brasiliense, em 2003, trazia a importância que o tema adquiria, especialmente em países como o Brasil, marcado pela exclusão damaioria da população dos bens básicos e dos direitos legais, e os limites da discussão até aquele período. Segundo o autor, os dogmas da inclusão digital estavam ligados a uma visão limitadora e tecnocrática: a sociedade deve ser incluída na sociedade da informação, ponto final; deve-se criar condições de infraestrutura para o acesso aos serviços digitais; a principal estratégia é a instalação de telecentros. Estudioso da cibercultura, Lemos questiona esses dogmas e os objetivos que permeiam essas premissas “incluir para que e para quem?” Nessa perspectiva, incluir é adaptar ao status quo; tendo a concordar com o autor. Os telecentros são estratégias que seguem essa perspectivas (talvez por isso as pessoas prefiram o acesso privado ao acesso gratuito nestes locais). Por fim, define inclusão: “Incluir é ter capacidade livre de apropriação dos meios, que não é só técnica, mas sociocognitiva ”. Essa análise de Lemos nos faz pensar que a tão propalada inclusão social pode significar apenas adaptar a um modelo social vigente decadente, em crise.

São muitas questões, todas profundas e interrelacionadas, para compreensão do problema em sua complexidade e não a partir dos dogmas que muitas vezes limitam a análise da inclusão digital.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Tecnologia Assistiva e inclusão social


Esse tema “Tecnologia Assistiva” é de fundamental importância para se pensar uma sociedade plenamente igualitária. Apesar de defender politicamente a inclusão das pessoas com deficiência, a falta de leitura e aprofundamento coloca meu discurso mais no plano do senso comum, sem pensar nos fundamentos dessa inclusão. O texto sugerido (um deles) “Tecnologia Assistiva: de que se trata?” de Teófilo Galvão F° resgata tanto o aspecto conceitual quanto os marcos legais sobre essas tecnologias. Penso que é uma incompletude discutir TIC e não ter apropriação teórica sobre Tecnologia Assistiva.

Durante a leitura, relacionei com algumas experiências pessoais que foram importantes pontos de aproximação com o tema. A primeira foi uma experiência na rede municipal que me deixou muito sensibilizada: a partir de um projeto de formação de corais nas escolas, fui acompanhar a culminância “O Encontro de Corais” no TCA, não me recordo o ano, eram várias escolas e ums dos corais era de meninos e meninas surdos-mudos, eles cantaram a música de Arnaldo Antunes e Brown “Velha Infância” : a música era executada e os alunos interpretavam a através da linguagem de sinais. Nossa !!! Nunca tinha imaginado essa possibilidade, afinal o coral é uma interpretação, uma leitura e essa era a leitura deles...fiquei emocionada.No texto Teófilo enfatiza que não basta “assistir” as pessoas com deficiência mas é necessário mudar também o contexto social para inclusão dessas pessoas “as intervenções e modificações devem ocorrer, dessa forma, também na sociedade, para que esta possa tornar-se realmente acessível e inclusiva”. Neste sentido, as dificuldades estão mais relacionadas as limitações da organização social do que nas limitações específicas de cada deficiência.

Lembrei das dificuldades de locomoção que enfrentei em 2011 por causa de uma infecção que tive no pé esquerdo, foram 02 meses de muleta, e como a cidade, em todos os seus aspectos relacionados a mobilidade e acesso é cruel com os que tem dificuldade de locomoção, não só as pessoas com deficiência motora, mas os idosos e pessoas em reabilitação. Em condições “normais” de mobilidade sempre ando com pressa e nunca havia percebido como o tempo do sinal para travessia dos pedestres é muito curto para que tem dificuldade de locomoção: pude me colocar em outro lugar. Aí o texto traz um conceito muito importante para compreender a inclusão numa outra perspectiva não somente de adaptação que seria Desenho Universal ou desenho para todos: pensar a organização da sociedade e dos espaços “[...] com vistas à participação, utilização e acesso de todas as pessoas”. Isso vai além da perspectiva de adaptação e segregação, com criação de espaços específicos para pessoas com deficiência.

O texto deixa claro que houve necessidade de definição/padronização conceitual, e neste sentido termo Tecnologia Assistiva, no singular, enquanto campo de conhecimento, envolvendo não somente produtos mas também serviços, tem sido o mais aceito pelas associações , comitês e consórcios voltados para essa área; a regulamentação também deve servir de marco para outros entendimentos mas a legislação brasileira ainda utiliza o termo Ajuda Técnica e associa mais aos produtos do que aos serviços e sem uma perspectiva mais ampla de inclusão que, no meu entendimento, passa pela inclusão social num modelo de sociedade excludente.

Não sei se avancei na interpretação textual, mas outras questões quero esclarecer no Seminário de Adriany e Priscila. Nos vemos lá!

sábado, 12 de maio de 2012

Mobilidade e Convergência

A partir da discussão no último seminário, na terça, e no grupo de estudos (quinta-feira) percebi aproximações entre esses temas e por isso resolvi fazer as reflexões na mesma postagem (uma postagem de convergência de temas...rs). Levy (1993) abordava que uma das características das redes digitais era a abertura a novas conexões e que não era possível encontrar a essência ou o núcleo central dos computadores, pois mesmos os mais antigos eram síntese de conhecimentos da informática, eletrônica e de várias ciências, sempre aberto a atualizações. Mas sem dúvida uma marca fundamental das redes é a digitalização, a transformação da informação, qualquer que seja, em bits amplia a plasticidade dessa informação, ao mesmo tempo em que facilita sua transmissão em redes de comunicação: “ a principal tendência neste domínio é a digitalização, que atinge todas as técnicas de comunicação e de processamento de informações. Ao progredir, a digitalização conecta no centro de um mesmo tecido eletrônico o cinema, a radiodifusão, o jornalismo, a edição, a música, as telecomunicações e a informática[...] Ora, a codificação digital relega a um segundo plano o tema do material” (p. 102).
Paralelamente, na dimensão física dos suportes, houve, e ainda há, uma crescente miniaturalização dos equipamentos e isso, sem dúvida, tem a ver com a ‘revolução dos transistores’ como já foi abordado pelo colega Santana em outros momentos, mas que também tive contato durantes as aulas de eletrônica. Penso que são esses dois processos a digitalização das informações e a minituarização dos equipamentos,  que estão na base da mobilidade e da convergência. A convergência de linguagem, que tem seus primórdios nas experiências de multimídia, na década de 1990, visando a integração entre a TV e alguns recursos interativos próprios da informática. A hibridação de linguagens possibilitada pela lógica hipertextual  presente nas redes digitais permite a interface entre diversas mídias,  na chamada hipermídia, e o resultado é mais que a soma das mídias. Mas a convergência engloba questões políticas e culturais, pois essa nova forma de organização e distribuição dos bens culturais, segundo S. Amadeo Silveira(2008) está “[...] desorganizando velhos modelos de controle da indústria cultural e dos serviços de telecomunicações, assim como lançando os grupos econômicos em uma feroz disputa pelos fluxos de riqueza” (p. 31). A industria fonográfica é o exemplo mais evidente dessa realidade. Por outro lado, penso que nem todos os bens culturais ou tecno-científicos estão disponíveis para toda a sociedade, refiro-me a medicina de alta complexidade e suas moderníssimas tecnologias de diagnóstico: nesse campo ainda há uma concentração por algumas indústrias (vejo a marca da Siemens que é uma empresa alemã da época da 2ª Revolução Industrial em muitos equipamentos de tomografia, RX, etc) e o uso fica restrito nos hospitais e clínicas. Mesmo que a interconexão possa potencializar a democracia (Silveira, 2008), acredito, concordo com Marco Silva que há uma mobilização em paralelo a uma despolitização. Um dia chegamos lá!!!!

Lemos (2004) no artigo Cibercultura e Mobilidade: a Era da Conexão argumenta que passamos da Era da Informação, iniciada na década de 70, para a chamada Era da Conexão marcada pela computação ubíqua e pela internet sem fio. Essa fase requer a revisão de conceitos consolidados nos estudos da sociedade e Lemos cita autores da Sociologia da Mobilidade como base para um novo paradigma ‘do social como sociedade para o social como mobilidade’. Alguns desafios para nossa compreensão desse contexto: reexame do significado de proximidade, distância e mobilidade; reconfiguração do tempo/espaço e do público/privado; hibridismo entre espaço físico e eletrônico; nomadismo tecnológico. O autor define mobilidade nestes termos: “Define-se mobilidade como o movimento do corpo entre espaços, entre localidades, entre espaços privados e públicos. Parece que novas práticas do espaço urbano surgem com a interface entre mobilidade, espaço físico e ciberespaço, como veremos adiante” (p. 03). Suas análises e argumentações, que na construção do texto aparecem de forma repetida, enfatizam as conexões que se estabelecem a partir de dispositivos móveis e da internet sem fio, que nos coloca, do ponto de vista tecnológico, diante da possibilidade de ubiqüidade, de onipresença ou de conexão em todos os lugares, potencialmente, pois são as configurações sociais que dão o direcionamento , neste sentido, percebemos, e é explicitado no texto, que se trata da realidade das metrópoles.

Assim, penso que esses processos paralelos de transformação no hardware e no software vão culminar no quadro tecnológico que vivenciamos. E embora sempre nos policiemos para evitar um olhar evolucionista, no campo das técnicas e tecnologias penso como Regis Debray (1996) que “a técnica obedece a um tempo de progressão [...] esse devir sinalizado” (p. 222/223);  que a tecnologia é uma flecha que uma vez disparada não retrocede. E para quem não sabe a diferença entre software e hardware, o Garfield explica bem explicadinho...rs

domingo, 6 de maio de 2012

Seminário Interatividade

No dia 08, próxima terça, eu, Harlei e Ugo traremos para a discussão o tema INTERATIVIDADE, por isso, gostaríamos e agradeceríamos bastante a participação dos(as) companheiros(as) de disciplina na construção do nosso seminário. Sintam-se à vontade para alterar, sugerir temáticas, concordar, discordar....enfim, remixar o nosso plano para o seminário, que segue abaixo:"

Organização do seminário:

1)      Conceitos básicos de interatividade
. O que é interatividade?
. Interatividade X Interação
. Conceito de ‘interacionismo’
. Níveis de interatividade - Podemos falar em níveis? (graus qualitativos de interatividade)

2)      Propostas de discussões:
. Interação e socialização
. Existe a possibilidade de um terceiro, fora do processo de interação, avaliar o grau de interatividade?
. As tecnologias digitais potencializam a interatividade? Como?
. Seria possível construir um sistema computacional que possa avaliar a interatividade?

3)      Interatividade e educação: potencialidades para o aprendizado

4)      Interfaces
Exemplos de recursos interacionais

Como inspiração, segue trechos de experimentações a partir do Parangolé de Hélio Oiticica, criação dentro da concepção de arte interacionista.