segunda-feira, 23 de abril de 2012

O leitor, o texto e o hipertexto


Ao refletir sobre o hipertexto como não remeter ao contexto social da leitura e da escrita, pesquisado  e analisado por Roger Chartier. Denise B. Braga resgata os estudos do autor para falar sobre “a escrita híbrida na Internet”: as marcas de oralidade que caracteriza a linguagem dos chats; a hibridação entre a escrita, oralidade, imagem; a hipertextualidade materializada na estrutura dos textos da internet, a hipermídia. Da leitura fica como idéia principal a percepção de que as linguagens se transformam em função dos suportes, das transformações de cada linguagem e dos contextos de leitura. Assim, as marcas gráficas que hoje conhecemos como a organização em parágrafos, as colunas, a pontuação foram incorporadas a escrita gradativamente o que permitia maior autonomia do leitor. Essa percepção da construção histórica das linguagens pode servir de base para desmistificar alguns preconceitos em relação a escrita da internet: que a internet não estimula a leitura e escrita; que a escrita é fragmentada e não-linear e portanto sem lógica. Essas afirmações partem de uma percepção da escrita como uma linguagem estática que não sofreu transformações ao longo do tempo.
Aquino (2006) afirma que a  estrutura do hipertexto surge após a Idade Média, mas o termo seria utilizado em 1965 por Ted Nelson no projeto Xanadu  e exemplificado nas experimentações do matemático/físico Vannevan Bush em 1945. As remissões, índices pessoais, comentários dos leitores relacionando com outras obras, anotações nas margens (chamadas de marginalias) eram marcas de uma leitura hipertextual. Do projeto Memex  de V. Bush a linguagem HTML  e os protocolos HTTP de Berners-Lee, os sistemas criados buscam materializar a complexidade da organização do pensamento humano, suas trilhas associativas, sua forma de armazenamento e resgate das informações, as conexões e redes neurais.
A argumentação da autora, questionável, é de que a Web mutila a as práticas bilaterais e perspectiva de coletividade das primeiras experiências de escrita hipertextual. O argumento talvez seja válido se pensarmos nas primeiras experiências da internet, onde apenas conteúdos eram disponibilizados (sites de instituições, portais de jornais e revistas) com poucas possibilidades de interatividade, apenas a interação reativa (definida por Alex Primo) “[...]pois o usuário fica limitado a escolher entre uma quantidade de links e a simplesmente navegar por entre este mar de opções, porém incluir novos rumos, ou
seja, novos links, isto não lhe é facultado” (p. 07). Primo apresenta uma classificação dos hipertextos de acordo com caráter  interativo: hipertexto potencial, hipertexto colagem e hipertexto cooperativo, este último permitindo a construção coletiva entre criador e usuário.
Se pensarmos na Web 2.0 outras perspectivas estão em ação: a comunicação, a interatividade, a autoria, a indexação e a construção de conhecimento tendem a coletividade. Sites de relacionamento, fóruns de discussão,chats, comunidades virtuais, blog, fotologs, Wikipédia, Twiter são exemplos. O próprio texto faz referência a essa nova realidade na Web  a partir dos estudos de Doughtey e O’Reilly que “enumera sete princípios da Web 2.0, dos quais três se fazem de extrema importância neste estudo: a) Controle original excedente, difícil de recriar as origens dos dados que os tornam mais ricos quanto mais pessoas os usarem; b) Confiar nos usuários como co-desenvolvedores; c) Aproveitar a inteligência coletiva (O’reilly, 2005, online)”. Interessante perceber como muitas vezes nossas escolhas são influenciadas por opiniões de internautas com os quais não mantemos nenhuma relação de confiança ou contato próximo. Pessoalmente, busco essas avaliações quando vou comprar algum produto na internet, mas também quando busco outros tipos de informação. Lógico que somente a avaliação dos internautas não determina minhas escolhas, outros fatores são importantes, mas leio os comentários.

A leitura vai além da decodificação do texto escrito. Ela envolve o entendimento sobre o escrito, sobre as entrelinha (o que está subentendido), sobre o tempo/lugar de onde fala o autor (contexto de produção), as relações de significação do leitor. Aliás, como não pensar na leitura como uma aventura hipertextual? Tenho gostado muito da leitura dos blog dos colegas, tem trazido outras reflexões e os comentários também! Os comentários nos blogs tem uma significância enorme para a interatividade e construção coletiva (responde por 30% da blogosfera), além de possibilitar redes de relacionamento entre os comentaristas. Estamos no caminho da construção do webrings (R. Ricuero), mas será que manteremos essa rede após a disciplina? Desejo que sim.

4 comentários:

  1. Sigmar,
    Gostei da sua reflexão, principalmente quando você se reporta a leitura e escrita na internet, por Denise Braga.
    Penso que, a comunicação através dos blogs, promovida pela disciplina EDCA33, é um ponto de partida para a formação de novos laços, bem como novas atitudes. Se vai continuar, depende de nós. Também desejo que se fortaleça e continue.

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  2. Sigmar,
    sugiro que leia o livro Interação mediada por computador, do Alex Primo, onde ele avança para a caracterização dos internautas contemporâneos como "interagentes" e não mais como usuários...
    veja isso
    abraço

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  3. Helena,
    é verdade, os blogs ter permitido ir além do tempo/espaço da disciplina, é bem interessante a troca.
    Bonilla,
    vou buscar essa indicação. Valeu!
    [ ]s

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