A leitura de Bauman (2001) trouxe muitas inquietações que certamente contribuirão para o entendimento da sociedade atual. O autor apresenta a fluidez como “principal metáfora para esse estágio da modernidade”. Resgata a perspectiva de transformação que a concepção de modernidade congregava, mas que no processo histórico resultou na substituição do Antigo Regime (a ordem feudal) por uma nova estrutura (a sociedade burguesa) cuja solidez/estruturação que alcançou anulou qualquer perspectiva revolucionária ou fluída “ os tempos modernos encontraram os sólidos pré-modernos em estado avançado de desintegração; e um dos motivos mais forte por trás da urgência em derretê-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar sólidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que tornaria o mundo previsível e, portanto, administrável” (p. 10). A linha de argumentação do autor aponta para caracterizar o estágio atual como “[...] uma redistribuição e realocação dos poderes de derretimento da modernidade” (p. 13). Num sentido similar, A. Giddens (situa essa fase 1991) atual como desdobramento da modernidade que se radicaliza em alguns aspectos. A ordem era se adaptar aos novos padrões societários e se acomodar. Hoje os padrões societários não são mais tão evidentes “a nossa é, como resultado, uma versão individualizada e privatizada da modernidade [...]”(p. 14) e cujos padrões códigos e regras estão cada vez mais ausentes. A fluidez das transformações dessa fase da modernidade ou do capitalismo faz com que as análises se tornem provisórias, ou melhor, contextuais, vinculadas a um tempo/espaço de produção.
No capítulo que discute tempo/espaço, o autor tece considerações sobre a vida na cidade ou vida urbana que promovem o reconhecimento de vários aspectos na nossa vida cotidiana: a privatização e militarização dos espaços públicos, o encontro de estranhos, a cultura do medo, a exacerbação dos excluídos/ marginalizados (exemplo da ação da prefeitura de São Paulo na cracolândia), substituição da concepção de comunidade pela concepção de cercamentos, de assepsia social. Uma condição da vida na cidade está ligada ao conceito de civilidade definida Senett como “a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da civilidade” (p. 112). A civilidade não é uma ação subjetiva, mas uma negociação/articulação entre os sujeitos sociais que permite a convivência em espaços coletivos; neste sentido, é do âmbito da esfera pública e não privada e está baseada na reciprocidade (o lema “Gentileza gera gentileza” criado por José Datrino, conhecido como poeta Gentileza, sintetiza essa característica da civilidade).
Na organização dos espaços e das dinâmicas urbanas, o autor traça uma interessante reflexão sobre os diversos lugares: lugares êmicos, lugares fágicos, não-lugares, espaços vazios, organização de espaços que permite o encontro de estranhos sem estranhamentos, sem interação e sem conflito. Analisa um espaço-público-não- civil típico das grandes cidades: os centros de consumo. Esses se caracterizam pelo distanciamento da realidade cotidiana “um lugar sem lugar, que existe por si mesmo” que reconstrói o sentimento de pertencimento sobre outras bases, o estar junto com o mesmo objetivo e reproduzindo a mesma ação, num espaço livre dos conflitos sociais e, assim, seguro e livre. Lembro-me de uma conversa com um Engenheiro de Produção que descrevia como a organização dos shoppings condiciona o nosso comportamento: a maioria das lojas é voltada para o público feminino que mais consome, os corredores não tem relógio e nem visão exterior o que nos faz perder a noção de tempo, a praça de alimentação é desconfortável para que a refeição seja rápida e dediquemos mais tempo ao consumo, os restaurantes usam cores que estimulam o apetite, enfim, todo o nosso comportamento é condicionado. H. Arendt (2004) sistematiza a condição humana em três bases labor, trabalho e ação): o labor ligado à condição biológica do ser humano e sua necessidade de sobrevivência; o trabalho que representa a capacidade de artificialização da existência, o que inclui os processos tecnológicos; e a ação ligada às interações sociais sem mediação de objetos, onde se situa a ação política. A autora argumenta que na sociedade de massa a ação, essa atividade de interação social que pressupõe a autonomia, é cada vez mais substituída pelo comportamento que, ao contrário, esvazia de autonomia e significado as interações sociais.
Numa análise geral do contexto educacional e do cotidiano escolar e suas relações sociais, percebo cada vez mais o esvaziamento do significado das ações, reduzindo nossa autonomia e proposição, restando a reprodução de comportamentos condicionados por um modus operandi pedagógico, sem uma reflexão mais profunda das implicações sociais, políticas, culturais da ação educacional.
* GIDDENS, Anthony. As conseqüências da Modernidade. Ed. UNESP, 1991.
** ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2004
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