domingo, 25 de março de 2012

As etapas tecnológicas, as TIC, as leituras e Hugo Cabret



A postagem no blog foi antecedida pela assistência ao filme de Scorcese “A invenção de Hugo Cabret”, película marcada por uma construção poética em torno da invenção do cinema, bem diferente do discurso ideológico forte e da crítica contundente que sempre marcou a produção do diretor. Ele próprio, o cinema, sendo a invenção de sonhos, propõe uma linguagem que entremeia ficção e realidade, o olhar e a tela. No geral, o filme fala dos anseios e sonhos por trás das invenções, esse processo de artificialização da existência (Arendt, 2004), que dá forma a uma imaginação individual e sintetiza, talvez, a mentalidade coletiva de uma sociedade. As engrenagens dos relógios mecanizando um tempo antes marcado por processos naturais, a perna mecânica do guarda da estação que ao mesmo tempo que permite seus movimentos tirados pela Grande Guerra, o constrange diante da florista, a grande biblioteca onde os livros (essa fantástica tecnologia) transportam os leitores para outros tempos, outras sociedades (como Julio Verne e suas viagens ao desconhecido), os trens e sua velocidade encurtando distâncias, esse elementos compõem a narrativa que nos envolve no filme. Num diálogo bem significativo na biblioteca o menino diz a jovem amiga ‘tudo tem um propósito, até as máquinas: os relógios dizem as horas, e os trens te levam a algum lugar, elas fazem o que deveriam, como Ms. Labise. talvez por isso as máquinas quebradas me deixam tão triste, elas não fazem o que deveriam. Talvez seja igual com as pessoas. Se você perde seu propósito, é como estar quebrado’ expressa-se sabiamente Hugo Cabret.



Bem, diz a música que “O desejo é o que torna o irreal possível”. Se esse desejo de artificialização da existência faz parte do que é nossa condição humana, de nossa forma de nos inserir no que denominamos de mundo, os propósitos que movem essa relação homem-técnica, tecnologia –sociedade são transformados em cada contexto histórico. Nesse sentido, as duas grandes guerras expõem o quão contraditório é processo civilizatório ocidental e como as estruturas de poder se apropriam do conhecimento tecnológico para se ‘solidificar’ (no sentido de Bauman). As etapas do processo tecnológico reproduzidas por Alex Primo, a partir da argumentação de Lemos, coloca como os propósitos de dessa relação sociedade-tecnologia são ressignificados também em função do próprio desenvolvimento das técnicas: da fase da indiferença, marcada pela mistura entre arte, religião, ciência e mito até a fase do conforto ou modernidade, onde a ciência e a tecnologia se tornam protagonistas da cosmovisão, chegando a fase atual, da ubiqüidade.
Nesta chamada fase da ubiqüidade, um ponto interessante discutido no texto de E. Correa diz respeito ao controle na rede: a comunicação na rede depende da transmutação em protocolos que funcionam como uma ‘identidade’ dos sujeitos e objetos que circulam e se comunicam na rede, uma codificação das trocas: “em termos práticos, se os protocolos são construídos pelo próprio ser humano para possibilitar as trocas em rede, então é condição inerente da rede a existência do controle da forma de acesso e a construção lógica das informações que nela circulam.” (p. 49). Isso redimensiona as esferas pública e privada da vida social. A comunicação coletiva e a troca de informações por meio de dispositivos digitais, a busca por condições e por um espectro de conectividade caracteriza, segundo Corrêa (2009), a cibercultura, cria uma nova “instância de compartilhamento do público e do privado”, um espaço paralelo.



A sociedade em rede, conectada e informacional vive uma crise de propósitos? Temos essa impressão quando trazemos esse diálogo para o contexto educacional (durante as formações no NTE os professores questionam para que mesmo a utilização das TIC numa escola que não tem merenda, não tem funcionários de apoio, não tem papel?) e também para as discussões mais cotidianas ou do senso comum. O discurso do pragmatismo é mais fácil de combater e contrapor. Pensar coletivamente os propósitos da ciência e tecnologia é algo mais complexo, exige a implicação e engajamento dos sujeitos nisso. E penso que tais questões não invalidam pensar no potencial do atual desenvolvimento tecnológico e sua penetração nos nossos saberes e vivências (CORRÊA, 2009). Mais uma vez me remeto a uma música de Gil “Queremos saber quando vamos ter raio laser mais barato”...



As leituras e discussões nesse primeiro mês do doutorado têm me trazido mais inquietações do que respostas, fui realmente tirada da posição de conforto das construções intelectuais que me trouxeram até aqui. Me sinto como na imagem ao lado, ao mesmo tempo consciente de ser uma mulher do meu tempo, condicionada pela finitude de minha existência e um pouco presa nos tempos/espaços institucionais. Mas penso que o processo é esse mesmo.E são essas reflexões provisórias, as vezes desconexas e meio caóticas, que tem ajudado a reconstruir o meu lugar nessa ampla discussão em Educação e Tecnologias.



segunda-feira, 19 de março de 2012

A ciência, a sociedade, a escola

Bonilla (2005) aborda em seu artigo os dilemas que envolvem a produção de conhecimento científico frente as transformações culturais e sociais atuais “.[..] as transformações científicas e tecnológicas estão intimamente relacionadas com as alterações que vêm ocorrendo nas relações e nas formas de organização social”. Aborda como os conceitos de verdade e realidade se transformaram ao longo da história, vinculados a uma ordem social e a uma cosmovisão. Muitos dos questionamentos a que está submetida a produção do conhecimento científico decorre de uma crise na crença do progresso e da ciência desencadeada após as Grandes Guerras do século XX quando todo conhecimento técnico/científico acumulado, antes associados a idéia de civilização foram instrumentos da “barbárie” da disputa entre as potências industriais; desde então qualquer pressuposto de neutralidade da ciência estava “em xeque”, pois as implicações sociais e políticas que envolvem a produção científica não são condicionantes fundamentais para entender seus direcionamentos.


Sobre a produção de conhecimento na escola, penso que há alguns aspectos a se considerar: escola e os sistemas educacionais trabalham numa lógica reprodutivista de conhecimento, o que muitas vezes inibe a pesquisa e a produção de conhecimento e cultura a partir do contexto educacional, como idealizava P. Feire, Giroux e outros autores; a concepção de ciência abordada tb envolve uma perspectiva total, típica da modernidade que depositava na Ciência toda responsabilidade de explicação da realidade, o principal parâmetro de saber a partir do qual os outros são julgados; as simplificações em nome da chamada “transposição didática” abordam a ciência; a abordagem do conhecimento científico enquanto produto e não como processo, esvaziando sua historicidade, conforme Leite (1993).

"Sei que a arte é irmã da ciência
Ambas filhas de um Deus fugaz
Que faz num momento
E no mesmo momento desfaz
Esse vago Deus por trás do mundo
Por detrás do detrás"

Quanta - Gilberto Gil




A ciência trabalha com recortes e com verdades provisórias pois o real não se reduz a representação que se faz dele através do conhecimento científico. Penso que é importante conhecer-se o processo de construção da ciência, os condicionantes envolvidos, as motivações, as subjetividades, as submissões, os avanços e retrocessos, a divulgação e silenciamentos desse conhecimento, ou seja, a opacidade que envolve o fenômeno em si, mas que envolve tb sua divulgação social.

domingo, 18 de março de 2012

Outras reflexões a partir de Bauman

Vivenciar esses momentos de transformações e produzir reflexões lúcidas sobre o contexto atual requer a habilidade de dialogar com diferentes teorias e campos do conhecimento para buscar a construção de nossas próprias significações. Na leitura do texto proposto de Bauman, num primeiro momento, fiquei envolvida com suas argumentações sobre a “modernidade líquida”, um outro momento, uma outra fase da modernidade (antes contida na metáfora do relógio como pontua A. Primo, ou da solidez em contraponto com a fluidez que caracteriza o momento atual); a construção textual de Bauman realmente cria uma rede de significações que envolve as teoria, o contexto social, as suas vivências e seu cotidiano. Busquei situar o autor em uma determinada corrente filosófica (seria Bauma pós-moderno? Marxista também não era), mas a cada página de leitura essa identificação ficava ainda mais confusa por que o autor, no meu entendimento, se deteve mais a um esforço de compreensão da sociedade atual do que a um dogmatismo conceitual, o que em nenhum momento trouxe incoerência e inconsistência a seus argumentos.

No vídeo outras nuances do seu pensamento afloram. A condição social do mundo pós-moderno é marcada pela passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo e pela fragmentação da vida humana (vida em episódios). Nesse contexto situa 02 processos irreversíveis: a interconexão (o mundo interdependente) e o dilema ambiental (limites de suportabilidade do planeta). No plano político, nos diz que há perigos para a democracia, pois o modelo de democracia atual está pautado nos limites do Estado-nação e há necessidade de instituições que dêem suporte a uma democracia global; a democracia entra em crise pois o modelo de Estado democrático construído no pós-guerra, atualmente, não consegue oferecer as condições mínimas de cidadania que prometeu, terceirizando suas funções (a ex. das atividades de ONG, instituições assistencialistas).





O sociólogo também situa as diferenças entre os laços sociais anteriormente construídos, baseados na idéia de comunidade, e os laços da rede digital pautados em 02 atividades básicas: conectar e desconectar. Interessante que o autor coloca como “o desconectar” caracteriza as relações nas redes sociais, o que no contato físico é mais difícil, traumático, no ciberespaço, basta um clique. Pessoalmente, demorei para entender essa lógica nas redes sociais, minhas estatísticas de amigos nunca subia na mesma proporção que a de outras pessoas que utilizavam os mesmos espaços e, na verdade, me deixava angustiada ver tanta gente ‘linkada’ ao meu perfil, pessoas que eu nem conseguia efetivamente interagir. Na verdade, é essa possibilidade de desconectar que motiva as pessoas a estabelecerem tantos “laços virtuais”; no plano físico buscamos sempre limitar a quantidade de pessoas com as quais interagimos e que podem gerar algum desconforto ou conflito. Para além dos espaços públicos não civis, que Bauman descreve no livro, nos outros espaços de interação (a sala de aula por ex.) vale a máxima “quanto menos somos, melhor passamos”.Na sua reflexão sobre a vida, a existência, coloca a “ a vida como criação” e como a felicidade está relacionada com a capacidade de dar sentido e forma a vida que se quer “há muitas formas de ser feliz”, ligadas segundo Bauman a 02 fatores: o destino (os condicionantes que não são escolhidos por nós) e o caráter; a vida de Sócrates surge como exemplo de vida escolhida. Há alguns meses, o senador Cristovão Buarque, inspirado talvez num movimento social que pleteia a felicidade como direito de cidadania (não recordo aqui o nome do movimento), pautou essa discussão no plano político brasileiro, ao pautar o debate sobre a inclusão desse tão complexo conceito entre os direitos fundamentais, ao lado de outros como saúde, educação, segurança. O que definiria do ponto de vista jurídico a amplitude ou limite a realização desse direito, carregado de ambivalência, contradições e subjetividades? No plano mais coletivo, a civilização vive sua ambivalência no dilema entre segurança e liberdade, e que em cada momento tendemos a abrir mão de um para consolidar o outro e construir o seu padrão civilizatório atual(no momento atual estamos buscando mais segurança, mesmo ao custo de abrir mão de certos padrões civilizatórios de liberdade).

segunda-feira, 12 de março de 2012

As inquietações de Bauman e as minhas

A leitura de Bauman (2001) trouxe muitas inquietações que certamente contribuirão para o entendimento da sociedade atual. O autor apresenta a fluidez como “principal metáfora para esse estágio da modernidade”. Resgata a perspectiva de transformação que a concepção de modernidade congregava, mas que no processo histórico resultou na substituição do Antigo Regime (a ordem feudal) por uma nova estrutura (a sociedade burguesa) cuja solidez/estruturação que alcançou anulou qualquer perspectiva revolucionária ou fluída “ os tempos modernos encontraram os sólidos pré-modernos em estado avançado de desintegração; e um dos motivos mais forte por trás da urgência em derretê-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar sólidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que tornaria o mundo previsível e, portanto, administrável” (p. 10). A linha de argumentação do autor aponta para caracterizar o estágio atual como “[...] uma redistribuição e realocação dos poderes de derretimento da modernidade” (p. 13). Num sentido similar, A. Giddens (situa essa fase 1991) atual como desdobramento da modernidade que se radicaliza em alguns aspectos. A ordem era se adaptar aos novos padrões societários e se acomodar. Hoje os padrões societários não são mais tão evidentes “a nossa é, como resultado, uma versão individualizada e privatizada da modernidade [...]”(p. 14) e cujos padrões códigos e regras estão cada vez mais ausentes. A fluidez das transformações dessa fase da modernidade ou do capitalismo faz com que as análises se tornem provisórias, ou melhor, contextuais, vinculadas a um tempo/espaço de produção.

No capítulo que discute tempo/espaço, o autor tece considerações sobre a vida na cidade ou vida urbana que promovem o reconhecimento de vários aspectos na nossa vida cotidiana: a privatização e militarização dos espaços públicos, o encontro de estranhos, a cultura do medo, a exacerbação dos excluídos/ marginalizados (exemplo da ação da prefeitura de São Paulo na cracolândia), substituição da concepção de comunidade pela concepção de cercamentos, de assepsia social. Uma condição da vida na cidade está ligada ao conceito de civilidade definida Senett como “a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da civilidade” (p. 112). A civilidade não é uma ação subjetiva, mas uma negociação/articulação entre os sujeitos sociais que permite a convivência em espaços coletivos; neste sentido, é do âmbito da esfera pública e não privada e está baseada na reciprocidade (o lema “Gentileza gera gentileza” criado por José Datrino, conhecido como poeta Gentileza, sintetiza essa característica da civilidade).

Na organização dos espaços e das dinâmicas urbanas, o autor traça uma interessante reflexão sobre os diversos lugares: lugares êmicos, lugares fágicos, não-lugares, espaços vazios, organização de espaços que permite o encontro de estranhos sem estranhamentos, sem interação e sem conflito. Analisa um espaço-público-não- civil típico das grandes cidades: os centros de consumo. Esses se caracterizam pelo distanciamento da realidade cotidiana “um lugar sem lugar, que existe por si mesmo” que reconstrói o sentimento de pertencimento sobre outras bases, o estar junto com o mesmo objetivo e reproduzindo a mesma ação, num espaço livre dos conflitos sociais e, assim, seguro e livre. Lembro-me de uma conversa com um Engenheiro de Produção que descrevia como a organização dos shoppings condiciona o nosso comportamento: a maioria das lojas é voltada para o público feminino que mais consome, os corredores não tem relógio e nem visão exterior o que nos faz perder a noção de tempo, a praça de alimentação é desconfortável para que a refeição seja rápida e dediquemos mais tempo ao consumo, os restaurantes usam cores que estimulam o apetite, enfim, todo o nosso comportamento é condicionado. H. Arendt (2004) sistematiza a condição humana em três bases labor, trabalho e ação): o labor ligado à condição biológica do ser humano e sua necessidade de sobrevivência; o trabalho que representa a capacidade de artificialização da existência, o que inclui os processos tecnológicos; e a ação ligada às interações sociais sem mediação de objetos, onde se situa a ação política. A autora argumenta que na sociedade de massa a ação, essa atividade de interação social que pressupõe a autonomia, é cada vez mais substituída pelo comportamento que, ao contrário, esvazia de autonomia e significado as interações sociais.
Numa análise geral do contexto educacional e do cotidiano escolar e suas relações sociais, percebo cada vez mais o esvaziamento do significado das ações, reduzindo nossa autonomia e proposição, restando a reprodução de comportamentos condicionados por um modus operandi pedagógico, sem uma reflexão mais profunda das implicações sociais, políticas, culturais da ação educacional.

* GIDDENS, Anthony. As conseqüências da Modernidade. Ed. UNESP, 1991.
** ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2004

sexta-feira, 9 de março de 2012

Primeiros passos da caminhada



O pensamento inquieto nem sempre se traduz em textos escritos, as vezes fala através de gestos, de imagens, de sensações. As vezes precisa de óculos para ver a realidade. As vezes precisa de oxigênio para entendê-la, respirá-la.



Quero começar com um poema que gosto muito e utilizava nas aulas; recebi, recentemente, numa lista de discussão e resgatou algumas inquietações.




Todo risco
Damário da Cruz
A possibilidade de arriscar
É que nos faz homens
Voo perfeito
no espaço que criamos
Ninguém decide
sobre os passos que evitamos
Certeza
de que não somos pássaros
e que voamos
Tristeza
de que não vamos
por medo dos caminhos