domingo, 29 de abril de 2012

A nossa blogosfera

Para manter o hábito (ou será o vício?) de publicação no blog, fui navegar nos blogs dos colegas, algo que já vinha fazendo, mas sem conseguir dar conta de todos...ao som do Led Zeppelin “The Song Remains The Sam”...a guitarra de Jimmy Page é fantástica!!!!! A leitura dos textos é muito importante, mas tem sido enriquecidas com as discussões e as publicações e comentários...me levam a rever o que pensei e publiquei. Embora exista a possibilidade de edição das postagens, acho legal manter o texto sem o lapidar, são idéias em construção mesmo. Após os seminários da última aula (que bom que fiquei em ssa para participar), as discussões que moveram, a postagem seria outra.Vou vasculhar as últimas postagens da nossa blogosfera.
 Interessante como cada autor imprime sua marca no blog, seja através do texto, seja através do visual. Os colegas da área de comunicação têm um cuidado especial para que suas postagens se comuniquem com os possíveis leitores (os títulos das postagens de Ugo já convidam para a leitura imediata, a imagens são articuladas com os conteúdos, bem bacana), a atualidade dos fatos que mencionam; o blog de Daniel é de alguém mesmo high tech que transita muito a vontade entre as diversas possibilidades gráficas e comunicacionais das TIC; as palavras envolventes de Handherson torna a leitura de suas postagens sempre um exercício agradável; os blogs de Santana e Harlei e Santana remetem a minha formação técnica, que não foi tecnicista, e as reflexões críticas de ambos demonstram que a formação na chamada Área 1 não precisa ser alienada; Adriany busca sempre estabelecer o diálogo sensível entre os autores e seu objeto, construindo um olhar todo especial (fiquei muito impressionada com o modo como ressignifica as categorias teóricas a partir das especificidades da deficiência visual, ainda não avancei neste sentido); o blog de Léa (que é fofo!) resgatou a importância de reler Vygotsky que, embora não tenha produzido no contexto da cibercultura, pensa o desenvolvimento psicológico/cognitivo e as linguagens como algo histórico e contextual, o que abre nossas possibilidades de interpretá-lo para esse momento; o blog de Helena expressa muitas idéias interessantes que ela não verbaliza na sala, mas que bom que tem o registro nesse espaço;  Ferdinando lançou mais questões do que respostas para fomentar o debate, com a poesia de Gil inspirando outras viagens; li o blog de Irinaldo para saber o que pensa, o perfil não tem informações, parece bem reservado; como não lembrar da nostalgia da postagem de Priscila que, em outro momento, também me jogou nas lembranças de minha infância num lugar que não existe mais pq foi destruído pela exploração de minerais “A grana que ergue e destrói coisas belas”.
Robert Plant, que é super performático, apresenta Stairway to Heaven como uma música sobre esperança, esta foi a música que me levou até o L. Zeppelin. Lendo a postagem de Pedro sobre Ativismo em rede (não havia lido antes), desperta um sentimento de esperança, de que pelo menos a indignação não morreu e nem foi sepultada pelo neoliberalismo. A indignação que permeia as reflexões de Julio sobre a Educação e a escola pública sucateada por muitas políticas educacionais mal intencionadas, ou melhor, políticas escrotas! São angústias que também compartilho como militante da educação pública.


Na verdade quero com essa postagem homenagear a turma toda e a capitã (Bonilla) por estarem me proporcionando momentos tão significativos nesse semestre do curso. Tem sido prazeroso e de muita aprendizagem. Adicionei os blogs nos favoritos para ler em vários momentos. Infelizmente, a Academia não é sempre isso, as vezes deixa de ser um espaço de construção do conhecimento e se perde em disputas de poder (ou só de ego) e em questões mesquinhas.
Para quem não sabe o que é rock’n’roll melhor que ouvir  NX Zero e coisas do gênero, é , o o solo de bateria de John Bonham em Moby Dick ou o baixo de J. Paul Jones em Heart breaker, o bom e velhor rock,n,roll. E a tropa é hard que nem o rock, osso duro de roer!!!!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Objetos de aprendizagem: reflexões iniciais


O tema Objetos de aprendizagem a princípio parece muito próximo dos professores que lidam constantemente com os processos de ensino/aprendizagem de alunos. De forma ampla penso que todos os meios ou dispositivos ou ambientes utilizados para promover a aprendizagem seriam os tais objetos. No plano mais filosófico podemos pensar na própria construção do conhecimento a partir da relação sujeito-objeto (na perspectiva construcionista que estudamos na disciplina do prof. Roberto Sidnei). Aqui o recorte são os objetos de aprendizagem que tem como suporte as Tecnologias Digitais (as redes telemáticas) utilizadas na educação on line e outros sistemas de aprendizagem em rede.

Me detive na leitura de DIAS, Paulo. Desenvolvimento de objetos de aprendizagem para plataformas colaborativas que foi indicada pelo grupo responsável pelo Seminário (uma boa indicação). O autor entende a Web não apenas como um depositório de informações, mas como redes que permitem a construção coletiva e colaborativa de aprendizagens, especialmente através das comunidades. Ele aponta que pensar na aprendizagem on line requer novos fundamentos educacionais, assim como “[...] flexibilização dos modelos organizacionais dos conteúdos que estão na origem do conceito de objeto de aprendizagem (Hodgins, 2002; Wiley, 2002).” (p. 163). Além desses aspectos pontua a necessidade de uma atitude pro-ativa por parte dos estudantes que se lançam na aprendizagem on line que requer disciplina, autonomia e competências metocognitivas de aprendizagem: “[...] aprendizagem as quais, no ambiente on-line, são definidas a partir da capacidade de aprender a aprender individual e colaborativamente através da pesquisa, da interacção e da construção partilhada e conjunta do conhecimento.” (p. 164). Saleienta que o objeto de aprendizagem não se reume ao conteúdo mas também ao processo que envolve a colaboração e a própria modelagem dos processos de ensino/aprendizagem.

Na definição de objetos de aprendizagem toma como referência as Ciências da Computação e a definição de Wiley (2002) como “qualquer recurso digital que pode ser reutilizado para suportar a aprendizagem”, pequenas unidades de instrução. A flexibilidade dos objetos de aprendizagem está pautada em duas características: a combinação (capacidade de adaptação a diversas plataformas e propostas educacionais) e a granularidade (relativa a dimensão do objeto). O autor amplia essa perspectiva ao analisar que para as comunidades colaborativas, os objetos de aprendizagem possuem organização e complexidades próprias e devem possibilitar a utilização em processos de troca e construção de conhecimento mais complexos do que na aprendizagem individual.

Concordo com o autor que a construção de comunidades de aprendizagem on line envolve quastões mais complexas que apenas a disponibilização de plataformas de acesso a conteúdos. Depende da interação, participação e engajamento dos sujeitos na busca por objetivos de aprendizagem. Acrescento que a questão metodológica também influencia. Pessoalmente, não gosto do modelo de educação on line que utiliza a tutoria, vejo que o processo de ensino-aprendizagem e sua organização fica bem fragmentado: uns elaboram o curso, outros formatam, outros (os tutores) acompanham algo que não conceberam e nem participaram da elaboração. Penso que o Moodle é uma Plataforma que possibilita uma maior integração dos processos: o mesmo professor pode elaborar, acompanhar  os alunos e modelar seu ambiente de aprendizagem; mas isso para turmas reduzidas, pois não é comunicação em massa!!!
No plano das políticas públicas, a educação a distância on line tem aparecido como solução para a democratização da formação, após todo um longo processo de exclusão da maioria dos brasileiros, especialmente do Ensino Superior e para os processos de diplomação de professores. Muitas vezes, os projetos de formação seguem uma lógica de aligeiramento da formação que não contribui qualitativamente com uma educação democrática e de qualidade.

O leitor, o texto e o hipertexto


Ao refletir sobre o hipertexto como não remeter ao contexto social da leitura e da escrita, pesquisado  e analisado por Roger Chartier. Denise B. Braga resgata os estudos do autor para falar sobre “a escrita híbrida na Internet”: as marcas de oralidade que caracteriza a linguagem dos chats; a hibridação entre a escrita, oralidade, imagem; a hipertextualidade materializada na estrutura dos textos da internet, a hipermídia. Da leitura fica como idéia principal a percepção de que as linguagens se transformam em função dos suportes, das transformações de cada linguagem e dos contextos de leitura. Assim, as marcas gráficas que hoje conhecemos como a organização em parágrafos, as colunas, a pontuação foram incorporadas a escrita gradativamente o que permitia maior autonomia do leitor. Essa percepção da construção histórica das linguagens pode servir de base para desmistificar alguns preconceitos em relação a escrita da internet: que a internet não estimula a leitura e escrita; que a escrita é fragmentada e não-linear e portanto sem lógica. Essas afirmações partem de uma percepção da escrita como uma linguagem estática que não sofreu transformações ao longo do tempo.
Aquino (2006) afirma que a  estrutura do hipertexto surge após a Idade Média, mas o termo seria utilizado em 1965 por Ted Nelson no projeto Xanadu  e exemplificado nas experimentações do matemático/físico Vannevan Bush em 1945. As remissões, índices pessoais, comentários dos leitores relacionando com outras obras, anotações nas margens (chamadas de marginalias) eram marcas de uma leitura hipertextual. Do projeto Memex  de V. Bush a linguagem HTML  e os protocolos HTTP de Berners-Lee, os sistemas criados buscam materializar a complexidade da organização do pensamento humano, suas trilhas associativas, sua forma de armazenamento e resgate das informações, as conexões e redes neurais.
A argumentação da autora, questionável, é de que a Web mutila a as práticas bilaterais e perspectiva de coletividade das primeiras experiências de escrita hipertextual. O argumento talvez seja válido se pensarmos nas primeiras experiências da internet, onde apenas conteúdos eram disponibilizados (sites de instituições, portais de jornais e revistas) com poucas possibilidades de interatividade, apenas a interação reativa (definida por Alex Primo) “[...]pois o usuário fica limitado a escolher entre uma quantidade de links e a simplesmente navegar por entre este mar de opções, porém incluir novos rumos, ou
seja, novos links, isto não lhe é facultado” (p. 07). Primo apresenta uma classificação dos hipertextos de acordo com caráter  interativo: hipertexto potencial, hipertexto colagem e hipertexto cooperativo, este último permitindo a construção coletiva entre criador e usuário.
Se pensarmos na Web 2.0 outras perspectivas estão em ação: a comunicação, a interatividade, a autoria, a indexação e a construção de conhecimento tendem a coletividade. Sites de relacionamento, fóruns de discussão,chats, comunidades virtuais, blog, fotologs, Wikipédia, Twiter são exemplos. O próprio texto faz referência a essa nova realidade na Web  a partir dos estudos de Doughtey e O’Reilly que “enumera sete princípios da Web 2.0, dos quais três se fazem de extrema importância neste estudo: a) Controle original excedente, difícil de recriar as origens dos dados que os tornam mais ricos quanto mais pessoas os usarem; b) Confiar nos usuários como co-desenvolvedores; c) Aproveitar a inteligência coletiva (O’reilly, 2005, online)”. Interessante perceber como muitas vezes nossas escolhas são influenciadas por opiniões de internautas com os quais não mantemos nenhuma relação de confiança ou contato próximo. Pessoalmente, busco essas avaliações quando vou comprar algum produto na internet, mas também quando busco outros tipos de informação. Lógico que somente a avaliação dos internautas não determina minhas escolhas, outros fatores são importantes, mas leio os comentários.

A leitura vai além da decodificação do texto escrito. Ela envolve o entendimento sobre o escrito, sobre as entrelinha (o que está subentendido), sobre o tempo/lugar de onde fala o autor (contexto de produção), as relações de significação do leitor. Aliás, como não pensar na leitura como uma aventura hipertextual? Tenho gostado muito da leitura dos blog dos colegas, tem trazido outras reflexões e os comentários também! Os comentários nos blogs tem uma significância enorme para a interatividade e construção coletiva (responde por 30% da blogosfera), além de possibilitar redes de relacionamento entre os comentaristas. Estamos no caminho da construção do webrings (R. Ricuero), mas será que manteremos essa rede após a disciplina? Desejo que sim.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Desafios da democracia e da ciberdemocracia

Num país de pouca tradição democrática como o Brasil, saído recente de um período de ditadura civil-militar, que ainda mantém altos índices de exclusão digital, pensar na instauração de uma ciberdemocracia parece algo utópico e distante. Mas como “os sonhos não envelhecem” e os autores com quem dialogo nesse texto (Lèvy e Lemos, 2010) não se eximem de pensar os desdobramentos da ciberdemocracia ainda como uma utopia, um caminho de emancipação da humanidade (conectada), me lançarei nesse devir analítico.


Antes de chegar nos autores citados, retomarei algumas idéias que considero importantes para a reflexão aqui proposta e que podem suscitar um debate bem rico. A primeira seria a relação entre as esferas pública e privada e a constituição do que se pode denominar de democracia moderna. Para Patrocínio (2008) o conceito de cidadania é uma construção histórica, cultural, e não ontológica, que remete às raízes gregas da vida na pólis. Ao conceito foram associadas as relações de poder, as questões de representação, de direitos e deveres e, posteriormente, condicionada às identidades nacionais com a estruturação dos Estados-nação na época Moderna. Para o autor, dessa herança Greco-romana, surge uma concepção simplificada de cidadania, associada apenas ao funcionamento das instituições políticas, denotando mais conformidade do que participação e sem um engajamento com outras dimensões sociais. Também salienta que o termo é tratado como uma significação neutra:


Muitas considerações sobre a cidadania vêem-na como uma categoria de algum modo neutra, ao longo dos tempos, na qual se incluem todo o tipo de estatutos sociais, como se na verdade todos participassem de forma livre e paritária na vida social, política, económica ou cultural de cada uma das sociedades em que se integram. (p. 48)


Já Chauí (2007) argumente que a crise de valores que vivenciamos nos remete a submissão da esfera pública, enquanto espaço de negociação de valores sociais, aos interesses privados e privatistas de uma classe social; o Estado, mediador das relações na esfera pública assumindo um caráter privatista: “Declara-se o fim da separação moderna entre o público o privado, em benefício do segundo termo contra o primeiro, fazendo-se o elogio da intimidade e criticando-se os pequenos poderes na família, na escol e nas organizações burocráticas[...]” (p. 490). No Brasil, argumento que o Estado historicamente não se configurou como uma esfera de mediação entre os interesses dos grupos e classes sociais, sendo constituído a partir de acordos políticos numa perspectiva paternalista, em relação a aristocracia agrária e a pseudo-burguesia, e patrimonialista e autoritária em relação à gestão pública e . Por conseguinte, a participação da sociedade brasileira nos espaços de deliberação sempre foi muito limitada, resumindo-se a momentos (como a eleição, os plebiscitos) e não a um processo de engajamento e decisão coletiva. As revoltas, mobilizações, os movimentos organizados sempre foram duramente reprimidos para se criar um imaginário coletivo, um mito de uma sociedade pacífica e sem conflitos. É nesse contexto que busco pensar nossa ciberdemocracia.


O argumento principal dos autores é que a cibercultura cria as bases para uma nova transformação da esfera pública numa nova esfera pública mundial a partir de 03 tendências do ciberespaço: a interconexão, a criação de comunidades e a propensão à inteligência coletiva. Tais tendências influenciariam positivamente, segundo Lèvy, os quatro domínios da democracia: aquisição de informação, expressão, associação e deliberação dos cidadãos. O potencial de comunicação e de produção de conhecimento que é viabilizado pelas redes telemáticas cria um novo espaço de opinião pública (fragmentado, disperso geograficamente, plural), de uma configuração diferente dos espaços modernos (praças, cafés, mercados) que emergiram com a imprensa e com a mass media. As mídias pós-massivas, da Web 2.0, empoderam os diferentes sujeitos conectados a opinarem e decidirem sobre os mais variados assuntos, do supérfluo ao essencial. Lemos afirma que “não é novidade que a relação entre a comunicação (a potência social) e a técnica (a potência da ação) está na base da dimensão política” (p. 28). A cibercultura traz a possibilidade de concretização de um ideal iluminista de Estado: a publicização das ações do governo ou o Estado transparente. Os exemplos se multiplicam e mesmo no Brasil (cujo Estado tem uma tradição autoritária) há iniciativas nesse sentido como o portal Transparência Brasil da Controladoria Geral da União. Mas a publicização dessas informações torna o controle social sobre o governo pela sociedade civil mais efetivo? Penso que ainda não há o suporte de outras instituições como o judiciário, o sistema educacional e a mass mídia para uma ação de cidadania mais consciente, aliás, essas instituições atuam mais como repressoras das mobilizações.


Nesse momento de reflexão, apenas um recorte diante de um tema tão complexo, vejo o esvaziamento dos espaços democráticos de debate e deliberação em diversas instituições, mas em especial na universidade. Cada vez mais as decisões são centralizadas e hierárquicas, estabelecendo-se uma lógica feudal de organização dos Conselhos Superiores e de subordinação dessa autarquia aos direcionamentos dos governos, no melhor estilo suserania e vassalagem (as instituições mais obedientes – aquelas que produzem os resultados esperados e que são adeptas do pragmatismo liberal – recebem mais incentivos e recursos financeiros). Um paradoxo para uma instituição que surgiu em plena Idade Média como um espaço de formação de intelectuais (Le Goff) que se estabelecia por uma lógica aberta, de debates e de intercâmbio de conhecimentos, bem distinta de outras instituições feudais. Temos a configuração da universidade instrumental ou operacional (Chauí) que visa a realização de metas do Estado. Estabelece-se uma equação perversa: diminuem-se os espaços de deliberação coletiva, aumentam-se os mecanismos de opressão (assédio moral, processos administrativos disciplinares). A vivência no sindicato trouxe uma visão política mais ampla sobre a universidade e mais engajada na luta por um projeto de universidade democrático e de relevância social.

domingo, 1 de abril de 2012

Santaella e o pós-humano

De antemão a expressão pós-humano, usada no título do artigo e do livro “Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura” (SP: Paulus, 2003) me causou um certo desconforto por remeter a imagem do cyborg ou do andróide presente em algumas películas (O Exterminador do Futuro, Blade Runner) e a uma perspectiva de sujeição da história a um presentismo tecnológico, algo desesperador e incômodo para uma historiadora. Comecei a leitura com um pé atrás, tenho que confessar. No último parágrafo, entretanto, a autora apresenta sua justificativa para a escolha do termo: a aproximação dela com o campo das artes levou a optar pelo termo que já é usado desde a década de 90 por artistas e teóricos da arte, ademais “ a expressão [pós-humano] tem sido usada para sinalizar as grandes transformações que as novas tecnologias da comunicação estão trazendo para tudo o que diz respeito à vida humana, tanto no nível psíquico quanto social e antropológico” (p. 31). Mas não precisei chegar ao final do texto para perceber que o viés apocalíptico não fazia parte das argumentações da autora e muitas análises foram mais moderadas.

Ao contrário do extremismo que marca algumas análises sobre a cultura digital e as implicações das TIC na organização social, Santaella faz a defesa da necessidade de análises e estudos que busquem compreender a complexidade da chamada cultura do virtual ou cibercultura, salienta que devemos rever categorias e conceitos visando uma compreensão menos superficial desse contexto . Nesse propósito, traz a organização do desenvolvimento (ñ sei se é a melhor palavra) cultural em seis eras ou seis formações culturais, que a autora pondera não são etapas lineares pois “[...]há sempre um processo cumulativo de complexificação[...]”. Essa proposição traz a idéia de transformações processuais em que um aperfeiçoamento tecnológico é fruto de acumulações de conhecimentos e aprimoramento de invenções/intervenções. Lembrei-me dos tempos da Escola Técnica, parecia que o transistor era a grande invenção e que tudo seguinte era resultado, na verdade, de um processo de minituarização: um C.I continha vários transistores, depois o processador (o 8086) continha vários C.I., nossa sou da época do XT, estudei linguagem Assembler, que hoje parece a pré- história dos computadores. Mas para quem acompanhou esse desenvolvimento mais de perto, parece menos impactante, menos assustador. As empresas de telecomunicações começavam a fazer investimentos em fibra ótica na estrutura da transmissão de dados, e sem essa infraestrutura pouco avanço seria possível para a configuração posterior da internet. Mas a internet parece que acelerou esses processos. Fecha parêntese!

Retomando as eras de Santaella, ela define seis tipos de formações: a cultura oral, a cultura escrita, a cultura impressa, a cultura de massas, a cultura das mídias e a cultura digital. A cultura das mídias caracterizada pelo consumo individualizado da informação e a mistura entre linguagens e meios; situa na década de 80 quando os equipamentos e dispositivos permitiam uma cultura do disponível e do transitório. A cultura digital, ou cultura do virtual ou cibercultura caracteriza-se pela convergência das mídias e “[...] pela exacerbação que a produção e circulação da informação atingiu nos nossos dias[...]”. Ela critica a idéia de que as transformações culturais são determinadas apenas pelas tecnologias e meios de comunicação, mas que é necessário entender as transformações nas linguagens e pensamentos que condicionam as formações culturais.

Outro ponto que quero destacar é a pertinência de se pensar a cultura digital vinculada ao capitalismo global e os desdobramentos dessa relação. Santaella afirma que os investimentos do capital de sido significativo nas TIC o que resulta também em sua disseminação. Nesse âmbito nunca é demais lembrar que o desenvolvimento e a produção de equipamentos computacionais, especialmente nessa configuração econômica globalizada, está pautada na diminuição de custos de produção via a super-exploração da mão-de-obra nos países que produzem o hardware, os chamados Tigres Asiáticos. Um artigo publicado no site Pijama Surf denunciava-se a exploração da mão-de-obra infantil nas fábricas de iPhone, iPad etc instaladas na cidade de Shenzhen, na China, como aquelas crianças e adolescentes de 13 a 16 anos, que recebiam 70 centavos por 16 h diárias de trabalho,estavam excluídos da possibilidade de aquisição desses produtos e como isso era contraditório com todo o marketing que envolvia/envolve o lançamento de cada produto da Apple. Claro que essas questões não se resumem a uma discussão tecnológica, mas as opções sociais e políticas que resultam nesse estágio ou fase de nosso processo civilizatório.

Bem, as leituras propostas (ainda não dei conta de todas L) e essas postagens têm permitido sistematizar e aprofundar muitas reflexões. Talvez não tenha se configurado como um canal de comunicação, isso é perceptível pelos acessos, comentários e outras interações (ou melhor, pela falta delas). Mas tem sido um divã, onde me deito e dou asas ao pensamento, nas minhas tardes/noites de domingo (aliás, ô dia que a internet é lenta!!!).