Ao ler alguns dados sobre acesso às
TIC e, especialmente a Internet, destaca-se o pouco acesso através de espaços
públicos em contrapartida ao maior acesso através de pontos privados, coletivos
ou não. Isso ‘de cara’ já sinaliza a inoperância das políticas públicas de
inclusão digital (como já discuti sobre esse termo na postagem anterior, não
vou polemizá-lo aqui, mas sinalizo sua incompletude e pouca adequação).
Paralelamente, é interessante perceber o avanço das lan houses, especialmente
nos bairros populares (mesmo nos mais distantes e isolados, sempre há uma lan
house, um mercadinho e uma igreja evangélica; um trinômio bem significativo se
pensarmos no poder da tecnologia, do mercado e da ideologia, não
necessariamente enquanto instâncias separadas). Nesses espaços de uso coletivo
da internet (as lan houses) acredito que há um universo de usos e sentidos para
as TIC e de variadas formas de inserção dessas pessoas na rede: a garotada que
vai jogar em rede (já ouvi dizer que fazem vaquinha para pagar o acesso e
compartilham o tempo); já vi pessoas que não sabem usar o computador e contam
com a boa vontade dos atendentes para acessar 2ª via de contas, documentos e
outros serviços...são tantas situações, mas vejo pouca análise científica sobre
o tema, apenas dados.
No Mapa da Inclusão Digital da FGV apresenta que no ranking
mundial de acesso a internet o Brasil está em 63º lugar entre 154 países
pesquisados, o que segundo a pesquisa não é um resultado tão negativo. Os dados
apresentam desigualdade de acesso entre os homens e mulheres, entre a zona
urbana e a rural, entre as regiões sul / sudeste e norte/nordeste, ou seja,
muitas das desigualdades consolidadas historicamente, são reproduzidas quando o
dado em análise é a inclusão digital. E quais as perspectivas de mudança desse
cenário? A pesquisa deixou subtendido que isso depende da melhoria das
condições de vida da população, porém penso que essa melhoria tem sido tão
limitada, que a mudança social deve ser mesmo estrutural.
Sobre as políticas públicas de inclusão digital, essas
discussões começam a ganhar visibilidade, no Brasil, a partir dos debates em
torno do programa Sociedade da Informação, mas as preocupações mercadológicas
prevalecem (BONILLA, 2010). Aponta para os limites dessas políticas no âmbito
educacional através de programas como o Proinfo, Proinfo rural e Programa Banda
Larga na Escola: a velocidade de conexão, a internet que não chega na zona
rural, o lobby das empresas de telefonia que resulta em conexões caras e
lentas. Os pormenores do problema, relatados cotidianamente pelos professores,
acrescentam a falta de condições de funcionamento dos laboratórios, a falta de manutenção dos equipamentos após a
perda da garantia, o número reduzido de computadores para o quantitativo de
estudantes, a não liberação das secretarias para a formação em serviço e tantos
outros. Vejo as iniciativas mais interessantes serem desenvolvidas a partir do
engajamento dos sujeitos atuantes na concretização das políticas do que
resultante de uma política pública bem estruturada.
Como um dos dados da pesquisa da FGV demonstra o acesso decrescente em relação a idade, ou seja, quanto mais velhos maior o nível de "exclusão digital", será que buscamos mesmo a universalização do acesso ou apenas para aqueles que são foco do mercado de trabalho? Deixo a reflexão a partir da charge:
